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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Escrever


A falha do romance brasileiro

por Rodrigo Gurgel






Dentre os artigos de Nelson Ascher na Folha de S. Paulo, sempre recordo de “O grande romance brasileiro”, publicado em 11 de outubro de 2004.

Partindo de um suposto encontro com certa escritora, finlandesa ou búlgara, Ascher constrói rara, irônica reflexão sobre o nosso romance.

Meses depois do encontro, em que o articulista expôs à escritora os “esplendores de nosso vernáculo”, esta lhe escreve, pedindo-lhe não “obras historiográficas ou tratados sociológicos”, mas romances que retratassem o Brasil. Ascher envia, então, alguns livros à curiosa escritora: “Machado, Mário, Oswald, Graciliano, Guimarães Rosa e Clarice”.

Passado algum tempo, ele recebe novo e-mail: “Obrigada. Os autores que você me mandou são magníficos e, se tivessem escrito em inglês ou francês, seriam universalmente reconhecidos. Lendo-os com atenção e concentrando-me nas entrelinhas fui capaz de vislumbrar algo da especificidade de seu país. Não me entenda mal: mesmo quem não saiba nada sobre sua terra pode se deliciar com eles. Mas aí é que está o problema, pois, embora eu tenha me deliciado, nem por isso creio saber hoje mais a respeito do Brasil do que antes de lê-los”.

Coloca-se, dessa forma, o problema do romance brasileiro, a sua falha: onde estão as “narrativas que, sem prejuízo da qualidade estética, oferecem um painel amplo e razoavelmente explícito do período histórico e da sociedade em que se ambientam”?

E a escritora insiste: “Quais são os melhores romances brasileiros sobre a era Vargas, a construção de Brasília, o golpe de 64, a ditadura militar e a transição para a democracia? Onde estão as sagas que descrevem a trajetória de diversas gerações de uma família italiana, árabe, japonesa ou judia desde sua chegada a Santos no início do século 20 até os anos 90? E as histórias de ascensão e queda individual cujo pano de fundo sejam as transformações de São Paulo ou do Rio?”.

Ela também observa que não há, no Brasil, “uma única variante local notável de um subgênero tipicamente latino-americano, o romance sobre ditadores como O Outono do Patriarca, de García Márquez, ou O Senhor Presidente, de Miguel Angel Asturias”. E completa, indignada: “Impossível, afinal vocês tiveram o ditador mais interessante de todo o subcontinente: quem são Perón, Trujillo, Pinochet e Castro comparados a Getúlio?”.

A resposta de Ascher expõe, com ironia, uma das nossas fissuras culturais: “O dr. Samuel Johnson disse certa vez a um jovem autor que seu manuscrito era bom e original, mas a parte boa não era original e a parte original não era boa. Pois bem: o Brasil produziu ficção boa e realista, mas a ficção boa não é especialmente realista e a ficção realista…”.

Nelson Ascher, que é poeta, tradutor e ensaísta, reflete um pouco mais sobre a questão e faz interessantes suposições sobre os motivos dessas lacunas: “[…] Talvez o país seja demasiadamente extenso e incompreensível, talvez o material necessário para estudá-lo nem sempre estivesse à mão, talvez os autores se sentissem intimidados pelos mestres europeus e norte-americanos ou se dirigissem a um público que, além de reduzido, conhecia o contexto tão bem quanto eles, talvez achassem o país maçante, repetitivo, imutável”.

O artigo não se esgota aí — e, tenham certeza, é muito mais perspicaz do que o injusto resumo que tentei construir.


Fantasia e imaginação no romance brasileiro

Hoje, passados quase dez anos, o que poderíamos responder às justas cobranças da personagem de Nelson Ascher? É o que me pergunto desde que li e guardei o artigo. E até hoje só penso num autor que talvez pudesse satisfazer a insistente escritora: Érico Veríssimo — e seu O tempo e o Vento.

Mas, como em tantos outros casos, a exceção confirma a regra. Uma só obra é muito pouco para a literatura que tem mais de três séculos.

À parte os nomes que, porventura, estejam me escapando, a pergunta central ainda não tem resposta: que outras razões poderiam existir, além das sugeridas por Ascher, para nossos escritores não produzirem o grande romance brasileiro?
 
Sete décadas antes desse artigo, Manuel Bandeira, numa crônica publicada no Estado de Minas, no dia 9 de setembro de 1933, tratou do mesmo problema.

Bandeira diferencia “imaginação” de “fantasia”, citando o filólogo e crítico literário João Ribeiro, para quem a “pura imaginação” é “aptidão a reproduzir no espírito as sensações, na ausência das causas exteriores que as provocaram”, enquanto define “fantasia” como a “capacidade de organizar as imagens na unidade de uma obra”.

Sobraria imaginação aos romancistas brasileiros, segundo Bandeira. E eles teriam lá o seu tanto de fantasia, suficiente para “representar uma vida, algumas vidas”. Mas o poeta completa: “Desde, porém, que elas são numerosas e as relações se multiplicam e complicam, falta-nos a força do contraponto para compô-las, e nem mesmo se tentará a obra”.

Nossos bons romancistas, salienta Bandeira, apresentam mais “as qualidades de observação e crítica, de introspecção ou de construção e estilo”, mas com um “trabalho da imaginação pouco sensível”.
Bandeira esclarece: “Sem dúvida, os brasileiros somos bem imaginosos. Mas falta-nos a aptidão de combinar tanta abundância de imagens e, sobretudo, de as exteriorizar artisticamente num entrecho que nos dê a ilusão da vida em toda a sua rica versatilidade”.

Manuel Bandeira, contudo, também não tem certeza sobre os motivos desse defeito, ainda que aposte em alguns: “Será por falha fundamental da capacidade criadora ou simples vício de composição, falta de aplicação ou ausência de estímulo?”.

De minha parte, descarto uma “falha fundamental da capacidade criadora”, pois isso seria nos condenar a um atavismo próprio dos piores naturalistas. Aposto mais no “vício de composição” e na “falta de aplicação” — problemas, aliás, que o minimalismo das últimas décadas só acentuou, desculpando a lacuna com justificativas pretensamente estéticas.

Os questionamentos da escritora de Nelson Ascher talvez tenham sido parcialmente respondidos por Manuel Bandeira. Mas as insistentes cobranças dessa “finlandesa ou búlgara” continuam de pé: onde estão os nossos romances “espessos, cerrados, florestais”? “Não há nenhum”, responde Bandeira, “ainda que péssimo”.




sexta-feira, 10 de julho de 2020

Escrever

O infortúnio de João Gostoso

por Armando Antenore (Piauí)




Às portas do Ano-Novo, em 31 de dezembro de 1925, o poeta Manuel Bandeira publicou a trágica história de um trabalhador braçal no vespertino carioca A Noite. Para contá-la, precisou de apenas 38 palavras e cinco versos – dois muito compridos, um mediano e dois minúsculos: João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia (num barracão sem número)./Um dia ele chegou no bar 20 de Novembro./Bebeu./Cantou./Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. De tão explicativo, o título da narrativa acabava soando enigmático: “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Será que o autor realmente extraiu poesia de um episódio que garimpara na seção policial de algum diário? Ou será que inventou o acontecimento para relatá-lo à maneira de uma notícia, ainda que lhe conferisse a forma de um poema?

Quando lançou a primeira edição de Libertinagem, em 1930, Bandeira incluiu o caso de João Gostoso no livro. A trama aparece ali com o mesmo título que exibia anteriormente, mas também com sutis modificações. O poeta eliminou os parênteses do verso inicial e os pontos finais que se espalhavam pelo texto, à exceção do último. Substituiu “um dia” por “uma noite”, colocou maiúscula em “lagoa”, trocou a grafia do algarismo 20 e, o mais importante, adicionou outro verbo à história, que ficou assim: João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número/Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro/Bebeu/Cantou/Dançou/Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. A nova versão do poema tornou-se um marco do modernismo brasileiro.

Em junho passado, o analista de sistemas e editor Cláudio Soares a reproduziu no Facebook para anunciar uma descoberta preciosa. Ele acabara de encontrar sete pequenas reportagens sobre João Gostoso, todas divulgadas por antigos periódicos do Rio de Janeiro. As notícias mostram que o carregador existiu de fato e chamou a atenção de jornalistas não só em 1925, quando morreu.

Foi justamente A Noite que retratou o personagem pela primeira vez. Em 23 de abril de 1916, uma nota com míseras doze linhas informava que certo João de Oliveira, “vulgo João Gostoso”, se armou de uma pedra e, por ciúme, “fez um grande rombo” na cabeça de Rosa Maria da Conceição. A Assistência Municipal socorreu a agredida, e policiais do 30º Distrito prenderam o agressor. O casal de “amasiados” habitava o morro da Babilônia, que àquela altura já abrigava a favela de mesmo nome, na Zona Sul do Rio. A narrativa, em tom sóbrio, ocupava o pé da página 4, entre outras notícias miúdas sobre a cidade, e não especificava a profissão de Gostoso.

No dia seguinte, o matutino O Paiz também mencionou o bafafá conjugal. Sem trazer novidades em relação àquilo que A Noite levantara, apimentou o relato com qualificativos dramáticos e um advérbio inflamado. Disse que o agressor, “ciumento como um Otelo”, bateu “desapiedadamente” em Conceição, a “ofendida” parceira. Já o título da matéria preferiu o sarcasmo: “Para a amante é que ele não foi gostoso.”

O personagem de Manuel Bandeira voltou à imprensa quase uma década depois. Em 16 de dezembro de 1925, uma quarta-feira, o Jornal do Brasil e o Correio da Manhã contaram que João Gostoso resolvera se banhar no canal da Lagoa Rodrigo de Freitas. A correnteza, porém, o surpreendeu e o arrastou para “o mar traiçoeiro”. Conforme o testemunho de um menino, o banhista lutou “desesperadamente contra as águas” até sucumbir. O corpo da vítima continuava desaparecido quando os repórteres escreveram as notícias.

Nem o JB nem o Correio da Manhã publicaram o nome completo do “infeliz” que se afogou. Ambos o trataram somente pelo apelido. Em compensação, afirmaram que era negro, tinha “presumíveis” 40 anos e trabalhava com “carretos nas feiras livres”. Nenhum dos periódicos lembrou que, em 1916, João Gostoso apedrejara a própria companheira.

Na quinta, 17 de dezembro de 1925, o JB cobriu novamente o afogamento. Só que, agora, o narrou de outro modo. A reportagem informava que “um menor” viu João Gostoso tirar a roupa e se jogar no canal da Rodrigo de Freitas. O garoto comunicou o incidente para um guarda civil, que avisou o comissário do 30º Distrito. Com a ajuda de pescadores, as duas autoridades resgataram o corpo que jazia no fundo da lagoa. A polícia aventou a hipótese de suicídio e encaminhou o cadáver para o necrotério do Instituto Médico Legal. 

Mais uma vez, o Jornal do Brasil divulgou apenas o apelido da vítima. Acrescentou, entretanto, que João Gostoso vivia “em um barracão sem número”, no morro da Babilônia, e que zanzara embriagado pelo bairro do Leblon.

“Uma ocorrência triste.” O Imparcial definiu assim a morte do carregador, cujo nome de batismo tampouco revelou. O diário abordou o assunto na mesma quinta-feira, dia 17 de dezembro. Embora trouxesse informações semelhantes às do JB, evitou falar em suicídio. O relato terminava com um detalhe que o concorrente deixou escapar: bêbado, João Gostoso dançou e cantou diante do bar Vinte de Novembro.

Por fim, no Natal de 1925, o Beira-Mar – semanário que apregoava defender os interesses de três bairros praianos: Ipanema, Copacabana e Leme – também noticiou o infortúnio do trabalhador. Fez um resumo do que os outros jornais apuraram, mas apelou para o sensacionalismo. Descreveu João Gostoso como um “maltrapilho”, uma “alma desgarrada”, que se encontrava “em deplorável estado de embriaguez” e ora causava “riso”, ora “piedade”. O título da reportagem enfatizou a dúvida: “Teria sido suicídio?”

O poeta Heitor Ferraz Mello, que leciona jornalismo literário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, já havia descoberto a matéria do Beira-Mar dois anos atrás. “Eu vasculhava a internet à caça de uns escritos do Carlos Drummond de Andrade quando me recordei do poema que o Manuel Bandeira concebeu sob influência dos ideais modernistas.” Com o intuito de averiguar se a notícia sobre João Gostoso circulara mesmo em periódicos do Rio, o professor decidiu consultar a Hemeroteca Digital Brasileira. O site da Fundação Biblioteca Nacional agrega jornais, revistas, anuários e boletins publicados no país desde o começo do século XIX. “Busquei por ‘carregador de feira’ e, mal localizei o texto, fiquei tão emocionado que o compartilhei pelo Facebook. Imaginei que seria útil para estudiosos de poesia.” À época, a Global – que edita os livros de Bandeira – gravou três vídeos com Mello sobre a reportagem e os postou no YouTube.

Criador e diretor do projeto Hiperliteratura, Cláudio Soares desconhecia a investigação do professor ao tomar a iniciativa de procurar a notícia que inspirou o poema. Ele recorreu igualmente à Hemeroteca Digital e pesquisou de madrugada, no apartamento que divide com a mulher e uma filha em Todos os Santos, bairro da Zona Norte carioca. “Primeiro, encontrei as matérias do JB e depois as outras, incluindo a do Beira-Mar.” Às 13h16 do último dia 28 de junho, a página do Hiperliteratura no Facebook revelou o achado.

O projeto, inaugurado em 2017, digitaliza clássicos nacionais que estão sob domínio público e os vende. Também dissemina informações a respeito de escritores brasileiros pelas mídias sociais. Daí a familiaridade de Soares com sondagens como a que realizou acerca de Bandeira.

O crítico literário Antonio Carlos Secchin – professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e seguidor do Hiperliteratura – festejou as boas-novas. “Por muito tempo, intuímos que João Gostoso realmente existiu e virou notícia, mas não havia como ter certeza absoluta. Era quase impossível encontrar reportagens sobre o carregador antes da revolução digital. Agora, graças às descobertas, podemos estabelecer relações precisas entre aqueles versos célebres e as narrativas que os motivaram. Ou melhor: podemos analisar de que maneira se deu a transposição do discurso jornalístico para o poético.”

Provavelmente, Manuel Bandeira leu a notícia em O Imparcial ou no Beira-Mar. Dos veículos que cobriram a desventura de João Gostoso, apenas os dois traziam todos os dados que compõem o poema. O escritor recifense o publicou em “O Mês Modernista”, coluna diária e transitória que o jornal A Noite lançara para expor as teses do movimento cultural. A seção circulou entre dezembro de 1925 e janeiro de 1926. Bandeira, Mário de Andrade, Carlos Drummond, Martins de Almeida, Sérgio Milliet e Prudente de Moraes, neto (ele se referia a si próprio desse jeito) alternavam-se na confecção dos textos. O pernambucano, que residia no Rio, assinava os de quarta ou quinta-feira. 
“Prudentico [Prudente de Moraes, neto] me transmitiu o convite para colaborar [com A Noite]. Fiquei assim sem saber se posso fazer coisa que preste. De que é que se tem de falar? De modernismos ou de toda coisa sabível? Não vão apresentar a gente como bicho ensinado, não?”, indagou Bandeira numa carta para Mário, em novembro de 1925. Encorajado pelo futuro autor de Macunaíma, o poeta acabou topando a missão. Depois, confessou: “Não levei muito a sério ‘O Mês Modernista’. Tratei de me divertir, ganhando 50 mil réis por semana, o primeiro dinheiro que me rendeu a literatura.”

Na mesma quinta em que narrou a trajetória de João Gostoso, o escritor divulgou mais seis trabalhos. Um deles, “Lenda brasileira”, também consta de Libertinagem, o livro que reúne outras pérolas de Bandeira, como “Pneumotórax”, “Vou-me embora pra Pasárgada” e “Porquinho-da-índia”.
Doze anos antes do poeta, o franco-suíço Blaise Cendrars – que viajou pelo Brasil na década de 20 e conviveu com os modernistas daqui – já adotara a estratégia de transformar um artigo do diário Paris-Midi no poema “Dernière heure”. Prudente de Moraes, neto empregou artifício idêntico em novembro de 1925, quando escreveu “Suicídio” a partir de uma reportagem de O Globo. Para o crítico Davi Arrigucci Jr., professor emérito da Universidade- de São Paulo, a criação de Bandeira supera “inequivocamente” as dos colegas. “Raros são os artistas que conseguem extrair tanto de tão pouco”, sintetizou durante uma entrevista por telefone.

Em 1990, num brilhante ensaio sobre o “Poema tirado de uma notícia de jornal”, Arrigucci Jr. notou que aqueles seis versos livres abarcam diversos paradoxos. O primeiro e mais óbvio: Bandeira se valeu de uma linguagem aparentemente não poética e impessoal para alcançar o poético e a marca personalíssima de um estilo. Outros: por meio da concisão formal, resultado “de uma poda completa”, o poeta expandiu o sentido do relato e converteu um episódio trivial da vida carioca no destino universal do indivíduo que é tragado pela finitude após abraçar a festa (o gozo de mãos dadas com a morte). O autor também conferiu à historieta de João Gostoso certa ironia, certa comicidade atroz que tanto acende quanto gela o riso dos leitores. De resto, incluiu no jornal aquilo que retirou dele, já que o poema apareceu originalmente em A Noite.

Tão logo examinou as reportagens de 1916 sobre a briga do carregador com a amante, Antonio Carlos Secchin – que, além de professor e crítico literário, se dedica à poesia – redigiu o “Poema tirado de uma notícia de poema”: João Gostoso era feirante, amasiado com Rosa. Ela não era flor que se cheirasse./Um dia, cansado das traições, pegou uma pedra que tinha no meio do caminho do morro e a arremessou contra a mulher./Rosa, rubra de sangue, chamou a polícia. João sumiu. Gostoso se tornou puro desgosto./Nove anos depois, bêbado, concluiu que era hora de acabar com tudo./E se atirou, nu, dentro de um poema de Manuel Bandeira.

Secchin publicou os versos no Facebook e amealhou muitos elogios. Uma internauta, contudo, questionou o crítico: “Por que você escreveu ‘cansado das traições’? A notícia diz apenas que Gostoso bateu na amante. Por que você ressaltou a infidelidade da Rosa?” O autor respondeu que “a poesia não tem obrigação de copiar a realidade” e lembrou que, segundo a matéria, o carregador atacou a companheira por ciúme. “Cada um pode supor os motivos, reais ou imaginários, que estariam na base desse ciúme”, completou. A internauta rebateu: “Sim, a poesia não precisa copiar a realidade. Só fiquei pensando por que, na hora de ficcionar, justo a Rosa tinha de ser a infiel.” O professor explicou que, em “descontroles” como o que acometeu o agressor, normalmente existe a suspeita de traição. “Pouco provável que João Gostoso sentisse ciúme porque Rosa torcia pelo Fluminense e ele, pelo Flamengo.” A internauta, desta vez, não retrucou.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Escrever


Flecha tardia



Noemi Jaffe



Escrevo porque existe uma área no olho, que não sei nomear, onde a lágrima se deposita antes de rolar para as faces, uma espécie de pequeno leito, uma borda.

Escrevo porque meu corpo tem um ritmo: o coração, o ventre, o estômago, o sistema nervoso, as mãos, o útero.

Escrevo porque não sou eu quem escrevo, mas as palavras a se escreverem, urgentes.

Escrevo porque sou muitas.

Escrevo porque hoje é o amanhã do ontem.

Escrevo porque não é o tempo que passa, mas nós a passarmos e é em nós que existe a duração, esse desvio subjetivo do tempo, em que as coisas perduram, o passado se transforma em presente e o futuro deixa de ser um mistério para se tornar uma vontade.

Escrevo porque morro e ressuscito.

Escrevo porque as palavras são criaturas cheias de dimensões e as coisas podem ser outras.

Escrevo porque os fatos não existem como uma coisa imponderável e fixa.

Escrevo porque acredito. Intransitivamente.

Escrevo porque a morte se insinua em cada desistência.

Escrevo porque Paul Celan, um dia, falou de uma "flecha tardia". Ele a lançou e ela, no futuro em que estou, me atingiu. Quero lançá-la mais adiante.

Escrevo porque Manuel Bandeira disse que Teresa era uma lagarta listrada.

Escrevo porque sou pedra e planta.

Escrevo porque meus pais fugiram do velho mundo, porque existem ainda pessoas fugindo de um país a outro, porque sou também fugitiva, porque a fuga é a condição primária da perda e do encontro.

Escrevo porque não entendo quase nada, porque não sei o pensamento, porque não conheço ninguém.

Escrevo porque amo David Grossman, que escreve tão melhor do que eu.

Escrevo porque escrever é errar e precisamos fugir do acerto.

Escrevo porque habito na iminência e ela habita em mim e porque, na borda do precipício, ou pulo ou contemplo a vertigem.

Escrevo porque entre as palavras existe o silêncio que elas inventam.

Escrevo porque resistir é aumentar o grau de impenetrabilidade.

Escrevo porque é difícil.

Escrevo porque tenho filhos, uma transitoriedade, uma lembrança, um salto.

Escrevo porque existe a nuance, essa nuvem que sopra sobre as coisas fixas.

Escrevo porque sou dinamite.

Escrevo porque aprendi a raiva, nariz comprimido, olhos apertados, peito contraído, potência dirigida.

Escrevo porque o amor é redondo, geodésico, porque ele planta bananeira e porque ele é a casca, o sumo e o caroço.

Escrevo porque sou pó.

Escrevo porque as etimologias me convocam para novas histórias, porque elas querem ser reveladas e porque revelar é também, de certa forma, velar de novo.

Escrevo porque li que, na índia, existe um deus cujo manto é feito de sílabas e porque essas sílabas sustentam o mundo.

Escrevo para entender o que são os metros dáctilo e trocaico.

Escrevo porque Sócrates, antes de morrer, aprendeu a tocar uma fuga na flauta e porque, ao ser perguntado sobre isso disse: quero aprender mais alguma coisa antes de morrer.

Nem sei por que escrevo. Escrevo porque nem sei.



(Imagem Fritz Kahn)