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segunda-feira, 25 de março de 2013

Nº15: Anáfora







Primeiro um pé. Depois outro pé. E mais um pé. Depois outro pé. E vai um pé. Depois outro pé. E vem um pé. Depois outro pé. E então o pé. Depois outro pé. E sobe o pé. Firmam-se os pés.

Surge a garota, indo em direção à plataforma. A escada é rolante, portanto ela só faz é descer descer descer descer descer.

No meio do percurso, eles se vêem. Coração fazia Tum e Tum e Tum e Tum e Tum e Tum e Tum, porém agora é tumtumtumtumtumtumtumtumumtumtumtumumtumtum.

Ele deveria voltar seu caminho e ir falar com ela. Mas pra quê? Pra levar um fora como naquela vez? E teve mais aquela vez. E houve uma outra com a Ana. E daquela vez, então? E todas as vezes que não lhe deram vez ou voz. Ele continuou subindo.

Veio o metrô, que em seguida foi embora túnel adentro. Mas logo veio novo trem. Parou e foi embora. Em seguida, chegou outra composição. Deixou as pessoas, levou as pessoas, apitou e tchau. Veio mais um trem, burururum, sai aquele povo, entra outro povo, toca o sinal, fecha as portas e bye.

Ela também vai. Num destes trens, numa destas vezes.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

nº17: Prova






Responda as questões abaixo baseado no conto lido anteriormente:

1)Quem é a menina que se dirige ao metrô? Para onde ela vai?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


2)Por que ela usa uniforme escolar se é sábado?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


3)Quem é o personagem que irá descer na mesma estação da menina? Para onde ele vai?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


4)Por que ele carrega um capacete cor-de-rosa na mão?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


5)O que ela pensa enquanto desce a escada rolante? Por que ela não está teclando seu celular?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


6)O que faz João parar enquanto sobe a escadaria?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


7)Complete a frase abaixo, de acordo com sua interpretação.

Quando os olhares dos dois jovens se cruzam, eles________________________________.


8)O que João disse para Maria sobre extintores de incêndio? Por quê?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


9)Maria respondeu furiosa “A melhor história é sempre aquela que ainda está na sua cabeça, aquela que ainda não foi para o papel.” Relacione esta resposta com os eventos ocorridos na rave durante a madrugada.
R:_________________________________________________
___________________________________________________


10)Você aprovaria a ação da polícia, alvejando João dentro do vagão antes que pudesse reagir? Justifique.
R:_________________________________________________
___________________________________________________








(imagem poraí. Texto por Brontops)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

nº14: Desconcerto






O altofalante emite dois toques anunciando a voz do condutor da composição. Próxima estação, tal.

(João escuta música em seus fones de ouvido)



O trem é um modelo dos anos 70, logo será substituído por um destes novos, com televisão, ar condicionado e mais espaço para se espremer em pé. Do escuro do túnel chegam rangidos de freios, soa doloroso, o peso das toneladas sobre os trilhos emite estrondos, passadas de gigante, marteladas. Todos ao redor adultos urbanos civilizados, indiferentes à canção grotesca cotidiana.

(João está concentrado no setlist. Agora é Life on Mars, Bowie)



Na tal estação, moedas tilintam pelo chão e interrompem Maria por um momento, até que outros auxiliem a senhora diante da bilheteria. Ela continua seu caminho, passa pela catraca, também um modelo antigo, logo trocarão por outro tipo, mais difícil de burlar. A borboleta gira com força, bate ao final de sua volta com uma pancada surda. Maria pisa sobre o degrau da escada rolante, o corrimão de borracha corre – literalmente – criando um murmúrio próprio. Dentro da máquina, as engrenagens batem em um ritmo cardíaco. Ela desce os degraus, apressada, escuta a aproximação do trem e não quer perdê-lo.
(Maria não usa fones)



Porém ainda há outro lance para vencer e não dará tempo. Pois quem estava na plataforma já ouviu. Ouviu o silêncio do túnel se cobrir pelo sopro das correntes empurradas pela composição, ouviu o vento velejando nas orelhas, a brisa sugerindo horizontes e mares na memória e não tumbas de concreto. Depois escutou o trinado da linha na promessa do trem, o grito histérico das rodas, a passagem cadenciada dos vagões em baixa velocidade, assovios, suspiros e chiados, água fria jogada em chapa quente, e as portas automáticas se abrem, ao correr rodopiante de carretilhas ocultas.

(João desembarca. Agora é Tocando em Frente, Almir Sater, quase acabando)



As pessoas viajam em seus mundinhos particulares, não escutam os passos dos passageiros, pequenas conversas, um choro de bebê, um espirro mais ali. A multidão reduz velocidade quando se aglomera diante da escadaria, as solas dos pés chiam no chão aguardando sua vez de subí-la. E chiam novamente sobre os degraus, cada qual em seu compasso, mas ao ouvido soa um único chocalho calmo.
(Maria gosta de música, como todo mundo, mas não a todo momento)



Ela para de correr, um pouco porque o trem embaixo já emitiu o sinal de fechamento das portas, outro tanto porque os passageiros se esparramam a frente e eliminam qualquer chance de corrida. Maria conforma-se, mas bufa um muxoxo entre lamento e revolta. Desce um novo lance de escada rolante, e distrai-se com o rebanho em passo de marcha mansa, quase uma invasão tranquila avançando sobre a escadaria ao lado. Maria observa João, seu rosto lhe é familiar, mas o contexto errado atrapalha o reconhecimento.
(João, por sua vez, está em Save Tonight, Eagle Eye Cherry e os acordes transportam a ele e a seu humor para outro patamar, se ele tivesse pedais, aceleraria saltaria nuvens)



Maria se recorda de João, tempos de colégio, namoros imaginados que nunca se realizaram, e lhe pareceu um sinal, um sinal de como as coisas deveriam ser.

(Pois, algo, para ser especial, precisa ser raro)



Ela se volta e grita “João, João”, mas ele segue reto, sem olhar para trás, embalado na canção. Maria ficou parada ao pé da escada vendo-o subir, cogita uma outra tentativa, suportando a mistura de vergonha e humilhação.

(Mas o sentimento ainda seria pior se ela se soubesse trocada pelo Eagle Eye Cherry, um reles irmão de Neneh Cherry, um nome bisonho como Olho de Águia Cereja, um sueco que fez duas ou três músicas que prestam, mas que jamais será o Abba, alguém tão vendido que tocou até no Big Brother Brasil. Porém, poderia ser outro: Asa de Águia, Brahms, Cole Porter ou a Mona Lisa, que pessoa, carne-pêlos-osso-vagina, quer ser trocada por este tipo de abstração?)



Maria desiste, está atrasada para a audição e, afinal, são outros tempos. Tempos de ir em frente.

(Antes era agora ou nunca, anote agora meu número, fique, não se vá, antes era "Sinal Fechado" ou "A Lista" agora é o que estiver no MP3 ou simplesmente “Que se dane, depois passo um recado no Orkut”.


Ou no Facebook: os tempos continuam mudando.)










(foto: escada do Convento de Cristo (Tomar))

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Zodíaco

agosto a setembro



“O ser humano não enlouquece pelas guerras, catástrofes, desastres, epidemias; o cadarço que arrebenta todo dia na hora de amarrar os sapatos isto sim enlouquece o ser humano.”, disse certa vez um grande homem[1].

Quem respira sabe, para viver é necessário inspiração. Empenhei a vida na confecção de um cadarço resistente. Cadarço ou atacador, nada mais que uma forma simplificada de corda. A corda, nada mais que um rolo de fibras. As fibras, nada mais que materiais muito finos e alongados. Estes fios numa trança transversal e longitudinal, de forma a criar força através de sua reunião. Suas pontas podem ser chamadas de pontas- de-cadarço, ponteiras, aguilhas, agulhetas, uroboleta, unhas-dos-fios, rabos-de-capeta.

Estudei os fios e os fiapos, o cabo de aço e a teia de aranha. Investiguei a biologia do sisal e do algodão, e o método pelo qual os povos pré-colombianos teciam seus mantos. Da Amazônia, trouxe pés de cipoeira-brava, de liana-vermelha, figueira de sete caudas, plantei-os em vasos do meu apartamento. Pelo meu quarto voejam borboletas e mariposas nascidos em minha coleção de casulos de seda. Na mesa da cozinha, experimentei os diversos nós possíveis e os encadeamentos pelos buracos, a quantidade adequada de buracos, cheguei a 118 formas de entrelaçar, das quais selecionei 25, entre elas o nó direto, o francês, o corrediço, o zigue-zague americano, a volta do fiel, o ostromo e o górdio. Na área de serviço, criei amostras caseiras de polímeros, do poliéster, da poliamida, da policarbamida, do poliuretano elastomérico. Descobri casualmente a decomposição das diaminas pelos raios ultravioleta quando esqueci as fibras no varal. Cheguei perto, muito perto.

O grande homem envelheceu. Agora aposentado, caminhava todo final de tarde pelo calçadão. Faz bem ao coração; para a cabeça, faz bem olhar a bundinha geralmente inalcançável das adolescentes. Ele sentado no banco parecia um senhor comum. Fazia frio naquela tarde, a praia meio deserta, e eu me aproximei reverente. O grande homem continuava sendo grande, mesmo velho, gordo, acomodado e pelancudo, mesmo na esperada ausência de grandeza. Contei-lhe meu projeto, como me inspirara, como me dera um objetivo.

O grande (velho, gordo, acomodado e pelancudo) homem riu. Primeiro, lembrou que as pessoas têm forças e disposições diferentes; aquilo que era resistente para uma, não seria para todas. Segundo, de que valeria um cadarço indestrutível se não o fossem os aros por onde ele se entrelaça ou as ponteiras que os reúnem? Terceiro, o custo de um atacador inquebrantável jamais poderia ser superior ao do próprio sapato. Quarto, e aqueles que andam de chinelos e enlouquecem ao se soltar as tiras? Quinto, criaram o velcro e hoje o homem enlouquece por não mais se arrebentarem os cadarços. Escutei tudo com atenção. Até ele terminar, o sol havia se posto e as ondas batiam nas pedras. Era dia de semana, estava frio. Eu o estrangulei com meu protótipo. Conforme esperado, funcionou à contento.





In virgine mulieres et fugitivi et compediti
Em Virgem, as mulheres, os fugitivos e aqueles que têm os pés atados

(39, 10) Satiricon, Petronius
[2]


[1] Se não me engano, a frase original é do Bukowski

[2] Este conto não teria sido construído sem o generoso auxílio do google

domingo, 2 de outubro de 2011

nº 12: Gif





Um relógio tremelicava seus ponteiros. Um homem na bilheteria deixara cair moedas. Os centavos desapareciam no voo antes do chão, e então tudo, moedas e homem regressavam a posição anterior. Uma senhora ajeitava continuamente os óculos perante o mapa ao redor da estação. Outro teclava um número infinito no aparelho celular. Um casal, o homem de boné levava a bolsa das fraldas e mamadeiras, a mulher de cabelo preso, carregava com cuidado um bebê em um cobertor de pelinho. Aproximei-me para ver se os bebês daquele tempo eram parecidos com os nossos. Achamos engraçado, eram cabeludos e despenteados. Um dos novos divertia-se numa parede, tentava pichar o próprio nome sobre o concreto, mas o próprio tempo se encarregava de apagar suas marcas, deixando-a sempre lisa, como estava entre aqueles centésimos de segundos.

O professor nos chamou. Mal prestávamos atenção nele, ainda fascinados com aquele sítio paleocivilizado, nem precisávamos, poderíamos baixar aquela aula numa outra hora, isto contaria deméritos no final do ciclo, mas tudo bem, quem quer ouvir explicações? Era nossa primeira excursão. Inicialmente, nos relembrou porque nosso passeio seria impraticável em um momento cravado, em um segundo congelado: seríamos incapazes de se movimentar ou respirar, a atmosfera e suas moléculas não abririam espaço para nossa presença. A escuridão seria total, pois nossos olhos precisam dos fótons refletidos continuamente sobre as retinas. Precisávamos perambular entre aqueles instantes, o que fazia as pessoas se mexerem naquela dança boba, entre um passo e outro, dizendo e desdizendo, inspirando e expirando. E continuou com outros detalhes chatos que só iríamos utilizar se nos tornássemos engenheiros de crononavegação ou compiladores historiográficos. E quem quer penar com salário mixaria...?

-Valendo pontos: alguém arriscaria um palpite para determinar QUANDO estamos? – perguntou o professor à classe. A bagunça parou, ficamos quietos, olhando para os pés. Apenas o mais bajulador dentre nós, o queridinho do Professor, sugeriu que (pelo material e pela ausência de sol) estávamos em um abrigo antinuclear das Guerras Aquíferas ou numa estação de transporte coletivo. O professor sorriu e completou sua resposta, realmente uma estação de transporte de trens METRO-politanos, do latim metrópole, que por sua vez, veio da junção de duas palavras gregas métra, que significa matriz, útero, ventre e pólis, cidade.

-De certa forma, é por isto que estamos aqui.

Descemos as escadas. Este pedia que não mexêssemos nas pessoas, embaladas naquele tempo dobrado. Era tentador e, esquecendo ou desencanando da constante filmagem de nosso comportamento, levantamos as saias de uma mulher, como quem levanta e baixa uma cortina. O gordo, sempre pensando em comida, chegou perto de outro mastigando algo. Insistiu mas não conseguiu arrancar o pão de queijo da mão daquele. Difícil não se divertir com aqueles estranhos e seus movimentos ridículos e repetitivos. Talvez, no fluxo normal dos segundos, aquilo fosse suave e discreto, mas para nós eram pulsos frenéticos de alguém eletrocutado. Não sei se eram feios ou bonitos. Eram esquisitos.


Antes da plataforma e da composição, havia uma escadaria, separada por uma mureta. De um lado, degraus metálicos; d´outro, paleoconcreto. Demoramos a entender que uma delas se movia. Descemos pela maior até um homem. Ele também aprisionado entre instantes, mas aparentava serenidade. Seus gestos não eram abruptos, talvez fosse esta a explicação. O rapaz estava em pé, apenas sua cabeça se movia acompanhava a moça. Depois da mureta, indo em sentido contrário, estava uma mulher. O olhar dos dois movia-se ligeiramente e de novo e de novo e de novo. Deveria ser um tique enervante como o dos demais. Mas não era.

O professor nos explicou que neste dia eles se conheceram. Que nos momentos seguintes, ele correria atrás dela e conversariam. Que as pessoas ainda se reproduziam e não eram como nós, dependentes dos bancos paleogenômicos. Bancos que começaram a ser desenvolvidos naquele tempo de pouca radiação. Que ela tinha um problema físico que os obrigou a fazer inseminação artificial. Que naquele tempo, ao contrário do nosso, o clima era ameno e o ar respirável. Nossos cromossomos vieram dali, daqueles improváveis Adão e Eva. Éramos todos irmãos, filhos daquele sangue antigo, daqueles nossos velhos jovens pais, os pais de todos os clones e iríamos repovoar o planeta.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

street view




o medo


Baixaram uma lei proibindo os animais no circo. Não houve um clamor público em favor da classe dos domadores, nem mesmo defenderam os mansos, que, sem lugar para viver, foram encaminhados a zoológicos pelo interior ou abandonados em terrenos baldios e quintais, elefantes, macacos, ursos, tigres e leões revirando lixo. Apenas os cavalos tiveram melhor sorte e foram encaminhados ao circuito de Rodeios, este devidamente defendido por Deputados Distritais da Associação de Peões e Vaqueiros do Centro-Oeste.

O circo bem que tentou sobreviver com os equilibristas, os malabaristas, trapezistas, palhaços, a mulher gorda, o mágico e todos os demais heróis do entretenimento mambembe. Porém, o Ministério do Lazer e Diversões só oficializou um cenário que há muito se insinuava. Observem: primeiro, a Mulher Gorda mereceu a visita do Associação de Defesa dos Ampliados Horizontalmente. Em seguida, os Anões foram levados pelo Grupo de Assistência dos Portadores do Nanismo (Apelidados, que ninguém nos ouça, de Confederação dos Jogadores de Pebolim). Os malabaristas barrados por não terem registro na Ordem Federal dos Malabaristas. Os contorcionistas emigraram para outros países, mais flexíveis no Código de Segurança no Trabalho. Inclusive os palhaços... Desistiram de romper a barreira dos displays luminosos nas mãos da pequena plateia a brincar com joguinhos coloridos. Foram deixando o circo, à medida que passavam em concursos públicos ou assumiam cargos eletivos.

Restou uma família de equilibristas. Esticaram uma corda entre dois paus na praça da rodoviária e se apresentavam ali. Não havia lona e se arriscavam sob as ventanias e a teimosia dos pombos que ali descansavam. Durava uns cinco minutos e só. O menino recolhia moedas numa cartola velha.

Hoje não estão mais lá. Não se sabe bem o que rolou, apareceu o marido da outra, puxou a arma e disparou lá em cima. O pai caiu que nem passarinho. A mãe largou a vida de artista e lava e passa para pagar a educação dos filhos, que vivem sozinho no barraco perto do rio.

O filho tem medo de sair de casa. Ele diz que o mundo virou corda bamba.



(B.Baruq)



(Imagem DAQUI, de Jon Rafman, um artista que coletou fotos do Google Street View. Explicações AQUI)

domingo, 26 de junho de 2011

Enxoval para o Bebê Diabo




Como bem se sabe, o Diabo fugiu para o Nordeste há muitos anos e desde então mora lá. Casou com Auxiliadora e teve cinco crianças e duas criaturas: Berenice, Beladona, Benjamin, Belzébio, Belatrix, Belizário, Belano. Foi aniversário dele estes dias (O Diabo só poderia ser de Touro ou de Capricórnio), apesar da idade, fez uma festinha, mais pelas crianças mais novas. Teve bolinho, uns salgadinhos, umas garrafas de Cerpa, umas doses de Pitú. O sogro trouxe uísque. Chovia e só vieram uns amigos mais chegados. Os filhos ficaram jogando Playstation com uns joguinhos piratas. O Diabo falava muito quando criança, até inglês ou latim se atrevia. Mas, conforme os anos passaram, ele foi ficando mais e mais calado.

Dia seguinte, despediu-se de Auxiliadora. Explicou o motivo. Ela entendeu e começou a chorar. Ele disse onde estava o dinheiro e deu a senha da conta do banco. Auxiliadora foi fazer um último café e ele foi despedir-se dos filhos. Dormiam todos no mesmo quarto. Só Berenice acordou e aproveitou isto para abraçá-lo bem apertado. Ela nem reclamou do enxofre.

Era madrugada ainda e ele caminhou em direção a estrada. O céu abria-se em laranja, o mundo aqui embaixo coberto de sombra. Um vira-lata foi latir para ele, tombou morto em seguida e sem explicação.

A bandidada corria solto naqueles sertões e os ônibus agora só vinham em comboio para se protegerem. Havia empresa que contratava até uns jagunços para acompanhar durante aquela parte do percurso. O Diabo estava sozinho no acostamento, fez sinal para os ônibus que pararam um atrás do outro. Ele se perdeu um pouco, procurando aquele que ia para São Paulo. Pagou direto ao motorista, o Diabo nem precisava ser telepata para ler seus pensamentos: piadas de cornos. Sentou-se, colocou os foninhos e ficou ouvindo Asa de Águia.

O Diabo voltava para São Paulo, ia visitar a mãe pela última vez antes do fim do mundo.


Segundo o Notícias Populares, em 1977 nascia em São Paulo, o Bebê Diabo. Detalhes AQUI.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

balcão



Seu neto também se chamava Francisco. Lá estava ele do outro lado do balcão. Quiseram abrir espaço, avisá-lo para pegar a fila dos idosos e deficientes. Ele se recusou, acreditando que o faziam apenas por aquele lá do outro lado do balcão ser seu neto. Francisco não queria favorecimento. Precisaram insistir muito, e foi uma estagiária (tirando o piercing e o cabelo azul, pareceria Rosa) quem o convenceu. Um outro senhor, de aspecto mais urbano, tentou puxar conversa. Francisco evitava estes outros velhos das filas: costumavam reclamar de tudo, de todos, do mundo (era uma forma de evitar reclamar de si mesmo, de Deus, de tudo). Mas aquele velho era diferente. Comparou o tempo de antigamente e o de hoje e afirmava: este era o melhor tempo de todos. Francisco ouviu, mas não queria saber muito. Pensava nas galinhas, na chuva, na plantação. Ficou cabisbaixo: fitou os próprios pés, confinados em sandálias, ambos pareciam do mesmo couro ressequido. Francisco não era dado a fantasias, mas esquecera de um sonho no qual formigas se confundiam de caminho e faziam um ninho ali na sola, entre os dedos cor de pedra. O painel mudou de cor, e foi seu neto quem o chamou para ser atendido.


O neto não pediu benção nem nada. Francisco jamais ia falar com a vó ou com os pais sem pedir a benção. O neto tinha um fiozinho que saía de sua orelha, o velho lembrou-se de uma pescaria na qual levara o neto e este chorara no mesmo desespero do peixe vivo lutando para sobreviver. Agora ele mesmo se enganchava nos anzóis. O assunto que os parentes tinham era chato demais para desenvolver aqui: percentuais, juros, safra, terras. Francisco ouvia, mas não escutava. Deve haver uma hora para se usar calçados; uma hora para sair do mato; de perder a dó de matar galinhas; de aprender a falar direito; de deixar de roubar goiaba. Chega uma hora de deixar de ser Chico. Foi neste momento que Francisco percebeu que perderia sua terra para os homens que viviam atrás do balcão.







(imagem Sebastião Salgado - Sem título - 1983. Fonte: Antropologia Social.)

domingo, 2 de janeiro de 2011

Nº08: Ciranda









Já passa da meia-noite, os passageiros desembarcam do trem com pressa, no desespero de não perder o último ônibus, que se ainda não saiu, está em vias. João gostaria de correr, mas está mancando, pé torcido. A estação é antiga, não tem elevador e você precisa chegar até a escadaria. Vontade de abordar a um destes estranhos: “Pede para o motorista esperar, pede para ele segurar só mais uns minutinhos, que eu já estou chegando.” Todavia esta não é uma cidade pequena; se fosse não haveria metrô. Uma cidade pequena, na qual todos se conhecem, cheia de pequenos segredos notórios, coberta pela vigilância dos vizinhos divididos entre repressores e calorosos. Aqui é cada um por si. E João acelera o que a dor permite acelerar, enquanto os demais se distanciam. Fica por último na corrida, passo a passo até alcançar o corrimão da escadaria fixa. João prestes a subir aqueles degraus todos quando vê no alto, no sentido oposto, diante da escada rolante: Maria.



Dali de onde está, João não tem certeza se Maria o viu. Improvável, pois a conhecendo do jeito que é, tão desconfiada, ciumenta, emocionalmente instável. João sabe que Maria não anda tomando seus remédios direito, mas ele não insistiu, nem tentou convencê-la do contrário. No fundo, João concorda com as queixas de Maria: sente sua letargia, a ausência do viço nos olhos, ressecada, quieta. Agora, entretanto, diante desta situação, João se arrepende de ter se calado a respeito. Já a imagina gritando lá do alto indiferente ao fato de estar em meio a estranhos: “O que você está fazendo aí? Já não deveria estar em casa? Não estava no velório daquela sua tia? Que perfume é este? Quem torceu seu pé?” Se Maria estivesse domada pela química, João poderia lhe contar a verdade, ou quase toda: sobre Sofia, sobre as jóias, sobre Calvino, o Instituto e o Falcão Maltês. Mas tudo dera errado, e João perdera celular, um dente e quase todo dinheiro: não fosse a enfermeira ruiva arrumar uns trocados para o ônibus, João teria que voltar para casa a pé. Agora sem nada só poderia esperar a fúria de Maria em tapas e arranhões e a humilhação pública de ser espancado pela mulher. Talvez nem tão pública assim, pois não havia mais ninguém na plataforma para dividir este embaraço. Contudo, é bom se lembrar da presença inescapável das câmeras de segurança e da certeza que um filme destes estaria na rede antes que se contratasse o advogado, algum capaz de conter a sanha sensacionalista dos curiosos.



Mas a mente de João trabalha com hipóteses, com as alternativas em jogo. Não poderia voltar correndo, tentar pegar o próximo metrô. Como se sabe, neste horário, os trens a circular são poucos e já passa do horário de funcionamento deles. Tampouco poderia subir correndo as escadas. Maria pregaria a vista naquela corrida manquitola, como se João praticasse marcha olímpica. Ela seria bem capaz de voltar pelas escadas e muito facilmente o alcançaria, não só pela sua velocidade (Maria foi campeã de corrida na escola), mas também porque com quase toda probabilidade já não haveria mais ônibus com o qual fugir.



Ocorreu a João de se abaixar atrás da mureta que separa as duas escadas. Porém, se ele se dobrasse rápido demais, óbvio que Maria atentaria nele. Quem sabe, preocupada, supusesse a queda de um estranho, um qualquer que sentiu-se mal e ficaria ali jogado até o dia seguinte. Mas, se por outro lado, ele se escondesse lentamente, Maria também desconfiaria. Por certo, acreditaria ser um ladrão, alguém armando arapuca, tocaia para atacá-la tão logo chegasse ao fim da escada rolante. Ela poderia inclusive empregar o que aprendera no curso de jiu-jitsu e defesa pessoal, puxar-lhe os cabelos, fazendo-o revelar sua face e então exigir explicações, explicações sempre insuficientes.


João precisa se decidir logo, o tempo passa e os passageiros já devem estar embarcando no ônibus no ponto diante da estação. Ele ainda está incerto se ela o viu ou não, porém começa a ponderar porque Maria também parou do outro lado da escada rolante. Vai ver ficou tão furiosa que não consegue esboçar reação nenhuma, como os dentes trincados e travados do cão antes de mordida. João evita encarar Maria, isto seria difícil, ela está longe, mas deixa a imagem da mulher em seu campo de visão. A princípio, imagina ser uma bolsa. Mas depois observa que se trata de uma tipóia. Como ela teria machucado o braço? João pressupõe um acidente no treino de jiu-jitsu, mas hoje não há aula. Quando precisou mentir a respeito do velório da tia em Santos, Maria respondeu que ficaria em casa assistindo a um filme de John Woo. O que ela fazia ali, na estação, tão longe de casa? Pretendia passar a noite fora, certamente, pois o próximo trem seria o último daquela noite. Suspeitando de uma traição, João deseja/não deseja estar com sua arma: enfurecido atiraria dali mesmo. Ele sabe que acertaria, sempre teve boa mira. Ah, e se Maria tentasse escapar, fugir na hora do último trem, ele se jogaria diante dela, João bem mais forte e pesado, e ela veria a porta automática se fechar e a escapatória desaparecer túnel adentro. Durante aqueles instantes, João divaga sobre o que teria levado Maria a estar lá, na estação, naquele horário: começa a juntar os fatos e relembra da ligação durante a madrugada de um homem chamado Platão e daquele repentino interesse sobre ourivesaria e das anotações sobre o Templo do Sol. Estaria ela envolvida com a Organização ou seria um caso com o professor de jiu-jitsu? Deve ser a Organização, pois ela não sairia para encontrar o amante assim, toda desarrumada, usando o metrô. O mais lógico seria pegar um táxi. Ou esperar o homem passar em casa, afinal ela não esperava que João aparecesse por lá. A não ser que estivesse apaixonada. Ou encurralada.


* * *

Relembraram uma cena do filme de Woo, as armas dos irmãos/inimigos apontadas contra a boca um do outro, no nariz o cheiro de outras pólvoras: como as serpentes no caduceu, como dois corpos no espaço em mútua atração e repulsão, na órbita dos desesperados, girando ao redor de si mesmos na ciranda em direção ao ralo do mundo.













(Escher.)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

nº 10: Apesar de seus olhos desesperados










Maria debruçada sobre João. João deitado ao pé da escadaria vê os degraus que o levariam à saída. Assim, sob esta perspectiva, desaparece rumo ao teto de concreto da estação. João se lembra da lua-de-mel em Cancún: de uma pirâmide pré-colombiana, onde os sacerdotes arrancavam corações e os arremessavam pulsantes escadaria abaixo. Sente algo grudento a molhar suas costas; percebe que é sangue quando encara Maria, Maria e seus olhos desesperados.

Já havia algo parecido com desespero em seus olhos enquanto ela descia a escada rolante. João subia os degraus da escadaria fixa, paralela a esta e escutou um gemido abafado que se aproximava. Ele estacou e passou a observar aquela menina de cabeleira vermelha. Maria aparentava vergonha de braços cruzados e uma mão ocultando a boca. Algo parecido com maquiagem borrava seu rosto e não escondia sinais do choro.

João é casado. Um cara sossegado, tanto faz se for por preguiça ou por amar Joana: não pula a cerca, nem tem uma tara especial por adolescentes. Mas por estar já um tanto alto pelos uísques e cervejas da festa no escritório, por ela ter escondido o rosto, por ela ter grandes e lacrimosos olhos azuis. João afrouxou a gravata e ficou parado ali no meio da escada, observando-a.

Maria estava encardida, mas tinha um estilo moderno, não sei se diria gótica, talvez classe média: uma calça preta justa sobre pernas magras, uma malha de listras grossas como faixa de pedestres, os cabelos lisos cobrindo a mochila de urso de pelúcia, mas em um conjunto meio desarranjado, imundo e amassado como um vira-lata. João pressupôs uma história triste, fuga de casa, pai violento, mãe repressora, um primeiro amor que terminou mal, como sempre terminam mal os primeiros amores. Lembrar de seu primeiro amor fez João continuar a subir a escada. Esqueceu-se da menina, mais preocupado em comprar dropes para disfarçar o bafo de álcool.

Entretanto, não havia primeiro amor na história de Maria. Devia ser meio-dia quando os caçadores invadiram sua casa. A mãe a sacudiu com força para acordá-la, dedo no lábio em gesto de silêncio e num sussurro ordenou que se escondesse na caixa d´água. “Vamos dar um jeito nestes homens maus”, assegurou seu pai. Maria assentiu silenciosamente, abraçou os dois e inspirou fundo querendo guardar o cheiro. Eles a ajudaram a subir pelo alçapão do forro. Ela caminhou com cuidado, desviando da luz que vazava entre as telhas, enquanto escutava os tiros e gritos. Arrastou o tampo e mergulhou naquele espelho frio e escuro da água.

Ficou ali, orando aquilo que lhe era possível orar, esperando. Maria empurrou o tampo e saiu de seu esconderijo. Os raios de sol se inclinaram e mudaram de lugar, passara-se uma hora ou mais. Ela se moveu silenciosamente para não alertar os caçadores. Contudo, um cheiro de fumaça e um brilho alaranjado se infiltrava pelas frinchas do forro: os homens atearam fogo à casa e esperavam do lado de fora, em um último ato antes do anoitecer. Ela abriu o alçapão e um sopro quente de fumaça atingiu seu corpo.

As chamas se espalhavam rapidamente. Maria pegou uma coberta velha e imunda esquecida ali e a encharcou na caixa d´água. Saltou no buraco do alçapão, esperando talvez uma morte breve sob as chamas, disparos de estacas ou pulverizada por água benta. Contrariando o esperado, já passava da meia-noite e ela sobrevivera, ferida, desamparada, mas ainda vivia. Ou algo parecido com isto. Pretendia se refugiar nos túneis do metrô até a noite seguinte, mas a fome a perturbava e seus olhos eram desejo e desespero e ela também viu João, João subindo as escadas em um balançar bêbado. Ela tenta se controlar, consegue se conter até o final da escada, mas como uma criança mal-comportada diante da mesa de doces, ela volta correndo, sobe os degraus de cinco em cinco e ataca João pelas costas. Ambos caem violentamente e antes que ele possa entender o que está acontecendo, já está deitado aos pés da escadaria, Maria debruçada sobre João, a boca e as presas imersas em sangue, e João murmura ao encarar o rosto dela.

-Eu sabia, eu sabia que era bonita.











Fonte imagem: esqueci. Foi de um tumbrl, acho que este.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

nº07: Negativo










João não pegou o metrô naquele dia. Não sentou no assento preferencial, destinado aos inválidos. Não perscrutou discretamente os demais passageiros. Não ouviu o condutor da composição anunciar sua estação. Não seria sua estação, porque não estava lá. Não desceu, não cruzou a linha amarela de segurança na plataforma ou as trilhas em relevo para as bengalas dos cegos. Não acompanhou a multidão no caminho para a saída. Não foi mais um, embora sempre tenha sido. Não subiu passo a passo os degraus da escadaria fixa. Não viu Maria do outro lado. Maria também não estava lá, então não haveria Maria para ver. Ela não desceu as escadas rolantes. Maria não viu João do outro lado. Nem esperou o trem chegar, nem ouviu seu sopro rugir no túnel, nem o freio rinchar nos ouvidos. O trem que não levou Maria sumiu na escuridão no caminho para as demais estações.

João e Maria que não pegaram o metrô naquele dia. Nunca esperariam encontrar seu amor no metrô. João e Maria que não estavam sozinhos, estavam um com o outro, em um não-lugar todo deles.












(Fonte clipe: Mrs Muddle - Bebê de Rosemary, por Twink)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Mister Mario Miranda Wong Quintana





Mister Mário Miranda Wong Quintana


Não era difícil ver aquele senhor nesta mesma praça alimentando aos pombos. Ele acompanhou a colocação de grades, portões e interfones sob as marquises onde anteriormente se amontoavam os sem-teto. Percebeu a troca dos bancos da praça por novos, ergonomicamente voltados a colocação de bundas e totalmente desaconselháveis a quem tentasse tirar uma soneca ali. O senhor Mário escreveu um poema criticando e denunciando o desprezo da sociedade por aquelas pessoas e o enviou aos jornais. Amarrou a mensagem na perna de seu pássaro favorito e o soltou pela janela. Apesar da assinatura graciosa de Miranda Passarinho, o responsável pelo envio da mensagem era Wong, uma de suas cinco personalidades identificadas e diagnosticadas posteriormente pelo renomado psiquiatra e militar da reserva Capitão Rodrigo Terra. Internaram aquele senhor no Instituto Psiquiátrico Forense para observação, e pararam de aparecer pombos mortos. Como nada é perfeito, também ressurgiram os mendigos na praça. Dormiam sentados, confortáveis em seu desconforto. Talvez nunca mais ouvíssemos falar dele, não fosse outra de suas personalidades, o paranóico fumante piromaníaco Quintana Boleadeira. Em meio a fuga de sua cela, ateou fogo nos colchões provocando o incêndio do edifício. Após uma noite de mortes, feridos e da maior fuga em massa de psicopatas e maníacos homicidas da história de Porto Alegre, a brigada militar e os bombeiros conseguiram controlar as chamas. Em meio aos populares que testemunhavam as operações de rescaldo, um ou dois internos hesitavam em voar para mais longe. Uma enorme coluna preta subia ao céu claro de inverno. Talvez pelo frio, um lamentou a demolição de sua antiga moradia. O outro acompanhava a fumaça que lembrava uma lava leve no ar e murmurou encantado por aquela manhã “As únicas coisas eternas são as nuvens.”

















(...)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Geysa e o guêiser








Geysa não tinha pernas. Perdeu-as num acidente de trem. Eu não sei os detalhes. Ficava na cadeira de rodas vendendo flores e soldados a pilha que se arrastavam e atiravam. Era na Estação, a meio caminho entre a Biblioteca e o Estádio. À noite, seu tio desempregado a buscava numa Brasília. Dentro, ficavam tupperwares vazios, cheio das migalhas de doces e salgados vendidos. Ele a erguia no ar, os olhos curiosos secavam os cotos das coxas morenas sob os holofotes dos faróis de carros, viaturas e coletivos no trânsito congestionado de início da noite.

Um dia, o tio avisou: melhor não irmos amanhã. Imagina, amanhã não vai ter nada, fica sossegado. Ela emprestou um vestido vermelho da vizinha. Usou uma calcinha branca. Melhor perfume falsificado. O tio não quis levá-la quando a viu daquele jeito. E ela, "imagina, eles são todos gente de bem". A Brasília parou, o tio armou a cadeira de rodas e a banquinha. Ligou alguns dos soldados. Retirou as flores murchas. Colocou uma mais ou menos no painel do carro. Despediu-se.

Lá pelo meio da tarde, começaram as sirenes. Depois os cavalos e a tropa de choque. As pessoas começaram a correr no sentido do Estádio. Um cavalo acompanhava estes fugitivos, o pé preso no estribo e um policial arrastado no asfalto.

Ela desviou o olhar. De longe, depois dos automóveis virados e do incêndio na Estação, ela viu a multidão saindo da Biblioteca; eram estudantes, todos eles nus, as caras pintadas de bandeira e os pintos duros como mastros.

Tirou o espelhinho e começou a passar o batom.






(.)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Portal 2001

Planetas invisíveis: Diana



(Capa coletânea Alice in Chains)




(Abaixo: via Neatorama - Ephemicropolis)

The making of Ephemicropolis from Peter Root on Vimeo.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

As gêmeas Olsen (? – 1907)









Dentre as diversas atrações dos espetáculos circenses do século XIX que vagavam pelo interior dos Estados Unidos, uma das mais inesperadas era a presença das irmãs Taureias, Maria Ida e Mariana Adamanteia (é). Segundo os cartazes, Taureias (ê) seriam filhas de Centauros e Sereias; porém não dispunham de partes bestiais [1]. O nome verdadeiro delas evidenciava a origem latino-americana ou mediterrânea. Entretanto, adotaram o sobrenome artístico e escandinavo de “Irmãs Maria Ida e Mariana Olsen”. Para ilustrar sua imagem nos cartazes, usavam uma figura de Rainha de Copas, as tranças cor de feno unidas em um complicado nó central de inspiração mística. Sem dinheiro para as entradas, você talvez espiasse através de um buraco na lona. E então veria as duas. Embora apresentassem quatro membros, todos eram braços: elas não tinham pernas; quatro seios, mas faltavam as bundas; duas cabeças, ausência de culote e quadril e nenhuma vagina. Onde o ventre de uma terminava iniciava o da outra. Elas remetiam àquela serpente de duas cabeças, feita apenas de começos. O espetáculo delas tinha conotações eróticas: quando uma levantava a saia, lá estava a outra, de cabeça para baixo sob a primeira. E então, esta se virava e assim por diante, dando várias cambalhotas de tal forma que o público já não sabia mais onde era em cima ou em baixo. Vai ver, nem elas sabiam. Cantavam em um idioma crioulo misturando sueco, russo, norueguês, espanhol e nahuatl. Ao fim da música, elas tiravam as saias, deixando apenas os corpetes, sobre uma silhueta de poucas curvas. Os velhos vaqueiros ficavam loucos ao ver as duas se sucedendo e sacavam seus revólveres e disparavam para o alto. O apresentador interrompia o tiroteio: mãos abertas e cartucheiras na cintura. Só depois de cessados os tiros, cheiro de pólvora pelo ar, chamava ao palco “El Comanche Borracho”. Surgia então um homem barrigudo em trajes indígenas. As vaias iniciais eram substituídas por risos quando os espectadores percebiam que o homem estava bêbado[2]. Prendiam as duas a uma roda e esta era colocada em movimento. O apresentador pedia silêncio: o número era perigoso e exigia uma grande concentração. Para o índio, o palco era um navio e o mundo, a tempestade. Mas antecipariam o final do espetáculo para você, um empregado do circo o surpreenderia; sem piedade, o jogaria longe depois de uns catiripapos. Apesar dos tapas e tudo mais, ainda assim você se lembraria da beleza estranha delas, daqueles grandes olhos tristes. Eram obrigadas a devorar coco de criança, para que pela outra boca saíssem pétalas. Brigavam muito, por banalidades: era difícil conciliar a vontade de ambas em ficar na posição normal. Em geral, ficavam estiradas em uma rede, lendo revistas francesas. Permaneceriam no Circo Mantecón por muitos anos até a morte do marido em um acidente incomum envolvendo cangurus e borboletas [3]. Segundo os registros históricos, existiram apenas exemplares femininos de taureias. Acredita-se que os masculinos – devido à sua natureza - estrangulam-se dentro do ventre da mãe. Não possuíam umbigo [4] As Olsen foram as últimas irmãs Taureias registradas: faleceram em doze de dezembro de 1907 na cidade do San Juan, México, em idade avançada. Não deixaram filhos.


* * *


(1):
Não confundir com a Taureia (é): criatura similar ao Touro, mas com cauda de baleia, responsável pelo afundamento de inúmeros navios na costa malgaxe. Alguns especialistas consideram a criatura do Oceano Índico uma subespécie do Mermahuatauro, avistada raramente em mares ou céus nórdicos. Ver NADIR, Abu Abdallah Muhamad “Relatos de Naufrágios na Costa Oriental da África: de 1000 a 1500”. Tradução Kawan Zarif; Recife, Editora Nautilus, 1969

(2):
O célebre humanista francês Claude Beau Zeau Klaun (1881-1938) classificaria este riso como um riso de identificação, no qual a audiência reconhece a semelhança do falar e do gestual do palco com aqueles da vida real, sendo em geral paródico e de fundo preconceituoso. Sim, pois como bem se sabe ainda hoje os índios norte-americanos vivem em um processo de degradação social e à margem da sociedade, sendo o alcoolismo e o suicídio resultado comum desta situação. Ver KLAUN, Claude B.Z. “Qual é a graça? Explicando a piada: Por uma explicação e taxonomia do humor”; Tradução Jean Michel Jarret; Rio de Janeiro, Editora Antárctica, 1953

(3):
Para detalhes, ver: INNUIT, Jean Michel & LEDGER, Jonathan Custer “Homeopatia Arqueológica Ártica: memórias do gelo do mundo pré-histórico”, Tradução Aluísio Alonso; Porto Alegre; Editora Globo, 1987.


(4):
A ausência de umbigos ou de registro de outros casos neste século levou à suposição que as Taureias pudessem ser um resultado de uma intervenção cirúrgica radical. Fatos recentes parecem corroborar este ponto de vista. No início da década de 50, um cientista soviético chamado Vladimir Petrovich Demikhov conseguiu transplantar a cabeça, ombros e parte dianteira de um cachorro pequeno em um mastim adulto. Os animais sobreviveram por alguns dias. Durante os quinze anos seguintes, o cientista refez várias vezes o transplante, todavia em nenhum caso os cães sobreviveram por mais de um mês. No início da década de 70, um outro cientista, desta vez o médico norte-americano Robert J. White (posteriormente se tornaria consultor de Bio-ética do Vaticano) promoveu transplantes de cabeças entre macacos Rhesus. Veja o documentário “Dr. White’s Total Body Transplant”, disponível no You Tube ou (mais rápido) leia o conteúdo deste LINK (Via Sedentário & Hiperativo). A repercussão do caso chegou a inspirar filmes de qualidade discutível.
Diante destes fatos escabrosos e amplamente divulgados, chegou-se à uma nova teoria conspiratória, esta tradição tão norte-americana. Suspeita-se que as Taureias pudessem ser fruto de um experimento cirúrgico com a macabra intenção de criar monstros circences. Veja Ortiz, James Wido,”Aberrações Circenses no Oeste Americano após a Guerra da Secessão”, Tradução José Canjica Maupassant; Rio de Janeiro, Rio Gráfica Editora, 1979. Infelizmente, nove metros de lava cobriram o sepulcro delas depois da erupção do vulcão Paricutin em 1952, tornando impossível a verificação atual de tais hipóteses.







(imagem Hans Bellmer... La Poupeé...Links AQUI )

sábado, 8 de maio de 2010

nº05: Amazonas




A porta do metrô abriu, e, lentamente, João saiu do vagão. As pessoas corriam para entrar no trem, apressadas. João tossiu. Arrumou os óculos sobre o nariz e procurou as flechas de saída, uma vez que não havia fluxo de pessoas para se orientar. Alguns pareciam gritar para ele, mas João ouvia mal, coisas da idade. Entretanto, ele poderia ter notado no cheiro de algo queimando. Caminhou com vagar para a escada, o sapato chiando sobre o piso da plataforma. O trem partiu, a composição passando cada vez mais rápida a seu lado, o mundo corre e os velhos ficam para trás. Lá em cima, as Amazonas invadiam a estação. Os rinchos e cascos estalavam na calçada. Um policial tentara reagir e agora ele era arrastado no asfalto por uma guerreira a cavalo. A carcaça de um ônibus fumegava, elas jogavam roupas livros revistas dvds piratas para alimentar aquela chama. Apearam de seus corcéis, espadas em punho, escudos erguidos. Buscavam aqueles que tentaram fugir por ali. Disparavam setas e arremessaram lanças contra passageiros e funcionários. Alguém que filmava os eventos com um celular teve a mão decepada. Um grupo rodeava a bilheteria à prova de balas. Os funcionários se escondiam ali dentro, chamavam por ajuda. Golpes de maças contra o vidro desenhavam estranhos girassóis. Finalmente trouxeram o candeeiro para os archotes e as flechas. Queimariam eles ali, em meio ao dinheiro, às moedas, aos bilhetes de metrô. As pessoas se deitavam e se encolhiam, as Amazonas puxavam estes pelos cabelos, roupas, mochilas. Deixavam estes degolados, os gritos afogados na mancha lenta densa de sangue pelo chão. Outros corriam, mas as setas varavam a carne interrompendo a fuga. Uma mulher da limpeza reagiu com vassouradas e até acertou uma antes de ser talhada pelos sabres. Alguns eram poupados, acorrentados, empurrados para a rua onde ocorriam outros massacres. E João subia as escadas com dificuldade. Nem viu o cadáver que descia sobre a escada rolante, a flecha certeira nas costas. Maria, a assassina, caminhava lentamente em meio aos gritos: queria se certificar que aquele estava morto. O corpo chegara ao fim do percurso e era sacudido pelas ondas dos degraus da máquina como se fosse um afogado. Arco ainda na mão, retirou outra flecha da aljava e desceu a escada rolante para recuperar a seta sangrenta. Ignorou as instruções de segurança aconselhando a sempre segurar o corrimão. Maria percebeu o velho subindo as escadas. Se antes ele estava alheio a tudo, agora notou aquela seminua, um dos pequenos seios mutilados. Ela retesou o arco que cedeu com um rangido reclamação de corda e madeira. Quando os dedos afrouxaram e a seta saltou com um silvo no ar, Maria o reconheceu, talvez tarde demais:


-Vô..?






(Kate Moss. Não lembro onde achei esta foto)

terça-feira, 4 de maio de 2010

ATAraio veados




Sim, meus caros irmãos, meus estimados drugues... Era uma Sexta Feira Santa, dia que Nosso Senhor Bog pereceu na cruz, feriado que todos os decrépes precisam ficar em suas tocas, entatuzados pensando em todas as estrumadas feitas na vida... O governo emitiu o soviete de toque de recolher; como em todos os anos. Eu avisei isto a BB, mas ela não quis nem saber:

-Eu liguei para todo mundo e ninguém vai viajar no feriado. Traga umas bebidas.

Lógico que ninguém iria viajar: a previsão era de precipitação de cinzas por aqueles dias. Mas era aniversário da Claudinha e não ia furar. A gente chamava ela também de BB, não sei se era porque ela era uma lesbo novinha ou se era pela Bardot.

Usei as vias secundárias para evitar as barricadas das brigadas evangélicas. As ruas estavam vazias. Preferi estacionar um pouco distante e caminhar. A cada passo, meus sabogues levantavam um pó fino e mérsque que sujou as barras de minha calça. Esperei na esquina até certificar-me que não vinha ninguém e fui até a casa. Não queria dar o azar de cruzar com um milicente. De fora, era evidente a movimentação da festa, as golosses, as gargalhas, os govorites, o Amadeo bem gronque na vitrola, me lembrou a um destes filmos estarres de Natal que passavam na TV, não lembro mais qual.

Quem abriu a porta, foi a Krizzy. Estava bonita, a devótchca. Vestia – como sempre – uma roupa branca e estava dependurada no teto fazendo aquelas travuscas de vampiro. Ela se soltou de lá e feito uma gata virou no ar e caiu de pé no chão em um tumdum pesado.

-Meu querido, como está..?, com um sorriso onde se vinham os zubes pontiagudos pronto para uns plóches nos chieéques dos desavisados.

Cumprimentei o restante dos drugues e bretes de nossa alegre confraria horrorshow, além de uns liúdes que eu não conhecia. Estavam a Ester, o Thiago, Isidoro, Bruno, o Alê, o Dênis, e mais uns outros que desmemoriei. O Otávio ensinava à Claudinha a dar uns golpes de dratsa sobre o tatame: na hora, Otávio esgavaratava a BB, que reclamava da força. Não era muito justo um curumin dar porrada na cunhatã. Mas a gente conhecia o Otávio, de iarbos maiores que o gulliver, sempre querendo ser machão, quebrar tudo, um cara da pesada, já havia sido preso algumas vezes, mas sempre escapulia: seu pai se esfolava no Ministério e ele nunca ia deixar seu querido pimpo se dar mal numa Prisesta. A Claudinha, apesar de esganada, conseguiu perguntar:

-Você veio sozinho...? Cadê o Flavio?

-O Flavio ficou em casa, preparando declaração de IR.

A Fê se esmerava atrás do bar preparando molôcos e drencons. Deu para perceber que ela estava meio piânitsa depois de experimentar zerocentos coquetéis.

-Apenas pra ver se está bommm...

E me estalou um betchov na minha bochecha.

-Êêê... Você não sabe que meu negócio são os Tchelovéques, não?

-Ué, você precisa abrir seu gulliver a novas experiências...

-Niet, meu gulliver só quer saber de abrir outra coisa... rs

Nos fundos da toca, os casais estavam na maior Arena. Descobriram que 60% das separações aconteciam devido às tarefas domésticas. Bruno e Thiago se posicionaram de um lado do anel e Isidoro e Alê no outro. Eu não entendi bem qual era o grande problema. Achei que tinha algo a ver com unhas e o mal do saponáceo sobre a derme. O Dênis me explicou: aquele que cede não é homem.

A gente chamava Dênis de dedé e babúshca, aludindo ao fato de ser o único avô entre nós. Era uma brincadeira para encher seus gréjines. Dênis estava muito bem, mas porque não atormentá-lo um pouquinho...? Ele já fora um cara mais nervoso, mas de um tipo que saía para punchar e terminava punchado. Sua jina o abandonara e só agora depois que a filha deles tivera uma munhequinha, ele reencontrara sua família. Agora gargalha mais. Mas ele já confessou para mim: se rever o tchelovéque da jina arranca-lhe o cabo de panela e o arremete aos jacarés do Tietê.

O pessoal estava na maior confraria. Eu cantei Linda do Roupa Nova. Mas a Fê estava impossível, ela queria me fazer hetero:

-Eu SEI que você cantou para mim..., e segurava minha mão.

-Arre!

-Larga mão de ser bunda mole...

-Mas para você, o pau vai estar mole também.

-Cabo de panela não fica mole, meu drugue...

A Fê era uma menina muito tímida, tímida demais para estes nossos tempos tão exibicionistas. Baseado-se na lei de oferta e demanda, a timidez deveria valer mais hoje em dia. Não que sirva de alívio para quem é tímido. Porém, bastava uns goles de molôco e a moça queria baixar as calcinhas e oferecer a nijinsky pro primeiro que aparecesse. Ficava bebinha e taradinha. Por algum motivo misterioso, ela encarnou em mim, e não no Dênis. Perguntei a ela o motivo:

-De enrugadinho, só gosto do saco. Mas se VOCÊ estiver, eu encaro vocês dois...

-Eu só vou, se o Dênis for...

-Sai pra lá, de pinto de homem já basta o do meu neto na fralda...

Aí começaram os preparativos para o sarau cinematográfico. Funcionava assim, depois da Grande Queima de Livros, às pessoas só era permitido assistir aos filmos. Por mim, tudo bem, sempre odiei ler. No máximo, gibi do Conan. Então, não existiam mais saraus, recitaus, etc e taus. Então, a Claudinha e a Esterzinha inventaram esta história de sarau cinematográfico... A gente se reunia e relembrava o pedaço de um filmo que vejassistimos.

Otávio pegou sua rabeca e fez a trilha sonora... O Bode interpretou o discurso sobre a paixão que Sandoval declama em “El Secreto de tus Ojos”. Isidoro descreveu a abertura de “A Touch of Evil” de Orson Wells. Claudinha não negou seu lado BB e nos recitou “Et mes fesses? Tu les aimes, mes fesses?”. Otávio - óbvio - fez o nascimento de Zé Pequeno em “A Cidade de Deus”:

-Dadinho o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra.

Todos estavam empolgados com películas horrorshow e eu escolhi uma cena que gostei de um meia boca. Enquanto eu fazia a minha parte, a Fê esfregava seu pezinho descalço nas minhas costas.

-O Chamado 2. Muito pior que o primeiro. Mas há uma cena... há uma cena...Naomi Watts e seu filho vão fazer um passeio de final de semana em uma feira no bosque. Lembro ou imagino alguns brinquedos de parque de diversões. Nada muito espetacular. Talvez seja o equivalente a um destes parques de periferia que existiam antes do soviete anti-entretenimento. O menino está perturbado e não consegue se divertir. Faz frio. O menino vê entre a mata que arrodeia o local, uma sombra. Um veado. Naomi chama o garoto. Decidem ir embora. Discutem por algum motivo. O único bom motivo para haver continuação em um filmo de terror seria para revelar que o verdadeiro terror não acaba. Sempre ecoa. Nunca esqueço quando atropelamos um homem. Não esqueço o baque mudo da carne no metal. Mas isto não é o filmo, é outra história. A mãe e o menino discutem. Ela não presta atenção à estrada. O filho grita. Ela freia. O carro para. Há um veado. Bambi estragou os veados. Na Europa, ele ainda é um símbolo de virilidade. No rótulo do absinto, há um veado verde. Eles se batendo na floresta. Os chifres engalhados um no outro. Os machos morrem presos em seu ódio. O veado encara os ocupantes do veículo. Um outro animal se joga contra a porta do carro. Querem o menino. A janela quebra. Outros veados perfilam-se pelo acostamento. Eles se agrupam. Um terceiro se joga contra a porta da motorista. A porta amassa. Ela pisa no acelerador, o veado não sai da frente. Ela buzina. Os demais cercam-nos. A mãe avança, o carro sacode. O animal não cede. Ela acelera o carro e depois solta o freio de mão. O veado é empurrado até tombar sobre o capô. Dispara adiante. Os animais ficam ali, plácidos, vendo o carro ir embora.

Fui embora uma hora depois. Dou a desculpa das brigadas evangélicas. Foi a sorte: um vizinho fez a reclamação e a Krizzy precisou arrancar a cabeça de alguns distintos milicientes. Mas esta é outra história. Além disso, já não estava presente. Presente? Puta merda, esqueci o presente da Claudinha no carro!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Nº04: Os vivos e os mortos




As escadas são paralelas, uma para subir, outra desce. As pessoas tateiam o corrimão de borracha, medem a velocidade dos degraus de aço a correr sob seus pés, deixam-se levar pela máquina; antes corriam, apressadas para chegar ali, então se aquietam, se conformam, se calam, silenciam, calmas ou sufocadas pelas demais. Entregam-se ao percurso. Sem ter o que fazer, batucam a borracha preta, procuram o espaço adiante onde as pessoas desembocam, ou veem a paisagem mudar lentamente sem esforço dos pés, como se flutuassem, como se estivessem mortos.



Mas aquela outra gente que escala os degraus ao lado não admira paisagens, não há espaço para isto. Precisa-se acompanhar o ritmo das demais, o rosto baixo para os próprios pés e degraus, para a bunda logo adiante, o som sibilante dos passos como o de muitos relógios marcando tempos diferentes, ou o de muitos pedidos de silêncio. E o peso de tudo que se carrega está ali, evidente nas bolsas, pastas, mochilas, sacolas, compras, naquele esforço inútil de quem está vivo ou Sísifo condenado, porque no dia seguinte, se estará ali de volta, no caminho inverso de ir para o trabalho. Rebanho, cardume, enxame. Sobrevive melhor quem não está sozinho, dizem. Mentira: sobrevive melhor quem está vivo.



E ali ele levantou o rosto, querendo ver um além adiante, saber se ainda faltavam muitos degraus, e ela no ritmo suave e contínuo da máquina o viu também e os olhares trocados ali, um fitando o outro, sem piscar, como animais predadores ou cegos. A máquina continuou a impelindo e a multidão atrás o impediu de se voltar ou de parar. O rosto um do outro se misturou com a indiferença dos outros todos vistos naquele dia. Mas por aquele breve pequeno momento souberam. E acreditaram.




Música de Philip Glass






(De um comentário retirado do YouTube sobre Koyaanisqatsi - @pim80180 : " I dont think its frightening. But it makes you conscious of a bigger movement which an individual can not control. Its the march of humanity in which we all take part. Its been going on for thousands of years en will go on long after we have died. It is maybe that overwhelming fact that may be perceived as frightening. But in the end we are all small pieces of this movement. It is us, but we cannot control it. A deep paradox in our (short) lives" )

terça-feira, 13 de abril de 2010

Nº03: perspectiva histórica






1.METRÔ



Hoje em dia, o trânsito é uma reclamação constante. Em Londres, em meados do século XIX, também. Engarrafamentos frequentes de carruagens e cavalos. Esterco se acumulava pelas calçadas. Pressão sobre governo para encontrar uma solução. Surgiu a ideia do metrô. Os primeiros túneis não contavam com um sistema adequado de ventilação. Os trens eram a vapor, uma permanente e sufocante fumaceira preenchia galerias e estações. Já durante a escavação, alguns operários chegaram a morrer intoxicados na fumaça das locomotivas. O barulho provocava surdez precoce em maquinistas, mais uma entre tantas outras doenças de natureza laboral da época. De início, os vagões eram sem janelas, caixotes apenas com portas de entrada. Naquela paisagem subterrânea, janelas para quê? Além disso, pressupunha-se uma melhor proteção para os passageiros. A claustrofobia do público obrigou-os a reinventar o vagão com janelas. Felizmente estes são tempos passados e aqui não é Londres (apesar do desejo de muitos). Dentro das composições, as pessoas adquirem um ar bovino, os olhos mortos, enjaulados em seus pensamentos, hipnotizados pelos monitores digitais, ensurdecidos pelo som dos arquivos MP3. Talvez os antigos engenheiros tivessem razão em retirar as janelas. Às 17:17, Maria chega à estação de metrô, alheia do mundo ao redor e a como ele chegara até ali, concentrada na longa volta para casa.


2.ESCADAS ROLANTES


O reduzido tempo de espera faz das escadas rolantes um excelente meio de transportar pedestres. A máquina garante o fluxo contínuo e veloz de um grande volume de pessoas, ao contrário de elevadores e escadarias. Modelos diferentes foram patenteados desde 1859, mas apenas em 1896 foi construído um operacional. Era um brinquedo de um parque de diversões norte-americano. Divertido? Talvez tanto quanto hoje em dia seria divertido um teleférico (ou um bondinho). Em 1900 surgiu a primeira escada rolante comercial; recebeu o primeiro prêmio na Exposition Universelle em Paris. Os degraus não possuíam ranhuras e provocavam escorregões. Para evitar quedas, um funcionário de uniforme auxiliava no “embarque” e “desembarque” dos pedestres (em geral, um moleque de uniforme, comum naqueles tempos. Ganhavam gorjeta, quando não um convite de alguma senhora mais assanhada.). Ainda hoje, todos os anos acontecem milhares de acidentes em escadas rolantes. Cadarços, cabelos e pedaços de roupas presos entre as engrenagens e degraus. Outros estão relacionados a sua má-utilização: pessoas que tentam montar no corrimão, crianças que correm no sentido contrário da escada. Recentemente, norte-americanos descobriram um novo jogo arriscado envolvendo escadas rolantes, o “escalator-spinning”. Mas a maioria das pessoas é obediente e trata as escadas rolantes com a deferência de quem merece ser carregado como peças em linha de montagem. Concentrada apenas no movimento da multidão a sua frente, Maria prepara-se para descer as escadas rolantes rumo à plataforma de embarque, às 17:18.



3.ESCADAS FIXAS



“Ninguém terá deixado de observar que frequentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma nova perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis.”, já dizia de forma irretocável o escritor Julio Cortázar em “Instruções para subir uma escada”(1964). Faz muito tempo que o homem sobe escadas. As mais antigas escadarias construídas pelo homem remontam a seis mil anos antes de Cristo. Lugares altos eram e continuam sendo pontos estrategicamente importantes. As escadas forneciam meios de subir com um menor risco de desequilíbrio e ainda possibilitavam mãos livres. Como bem sabem os alpinistas, “descer” é tão ou mais arriscado que “subir” e as escadas concediam velocidade e agilidade. Para descer uma escadaria circular, o sentido era sempre horário e para subir, anti-horário, de forma a dificultar o trabalho de invasores e facilitar o dos protetores. A mão da espada era favorecida para quem descesse as escadas. A não ser que os invasores fossem canhotos, mas naquele tempo era uma obrigação ser destro. Mas João é indiferente a estas questões bélicas e de esquerda ou direita. Olha para o alto da escada sem razão aparente, talvez para confirmar que ele terá seus movimentos restritos ao do restante do rebanho a subir. E então ele a vê, de longe, descendo a escada rolante. À medida que avança, o rosto de Maria se aproxima e ele fixa-se nela, sob risco de tropeçar. As pessoas miram o chão ou a bunda de quem está adiante. João encara Maria. Ela está distraída, poderia deixar passar e acabar ali. Mas ela se surpreende com os olhos de João. Maria cora e abaixa o rosto. Talvez seja a timidez, talvez seja amor. Seja o que for, João decide ir atrás dela.


4.SENHORAS GORDAS



As senhoras gordas existiram desde sempre. Por toda a Eurásia, encontram-se pequenas figuras de pedra: são mulheres gordas, calipígias, regaços profundos, as formas arredondadas como bolas de sorvete sobre uma casquinha. Os braços finos, a cabeça sem rosto, coberta por tranças, ou chapéu ou olhos como os de um inseto. Pensava-se serem elas representações de alguma deusa feminina, a Grande Mãe, relacionaram estas imagens com a ideia de uma sociedade pré-histórica matriarcal. As imagens não ficam de pé, trazendo a suposição de se tratar de uma espécie de amuleto. Mas surgiram hipóteses nas quais estas figuras de pedra seriam brinquedos de homem, o equivalente ancestral da revista Penthouse. Os caçadores de mamutes usariam estes ídolos para se masturbar. Ou inserida na vagina em um ritual da fertilidade. Ou no rabo conforme a vontade. Nas paredes das cavernas, é difícil encontrar a figura humana bem representada. Alguns povos possuíam um senso artístico bastante desenvolvido: eram capazes de pintar com precisão e realismo animais selvagens; usavam o próprio relevo da parede da caverna para sugerir altos e baixos relevos. Já o ser humano era quase sempre esboçado, rascunhado, não se viam rostos ou pessoas. As imagens eram pouco melhores que bonequinhos de palitos. Apesar disso, em uma pedra no nordeste brasileiro ainda é possível reconhecer duas senhoras gordas. O povo argumenta ser possível acompanhar sua história como quem lê uma tira de jornal, apesar da crítica dos antropólogos que ridicularizam tais teses. Observa-se que estavam no caminho de um caçador. As imagens sugerem que o caçador não titubeou diante dos obstáculos obesos. Arremessou a lança contra as senhoras. Daquela vez, o animal escapou e as senhoras gordas sofreram o pior destino. A história sempre se repete, nunca da mesma forma. Vejamos, portanto, às 17:19, que duas senhoras gordas se interpuseram no caminho de João. Ele vê a Maria ir embora em um trem lotado para lugar ignorado, as costas dela prensadas contra o vidro das portas automáticas. As senhoras gordas prosseguem conversando, indiferentes. João gostaria de uma lança. Sem ela, volta a encarar a escadaria fixa, repleta de passageiros do trem que acabou de partir. São 17:22.





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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nº02: paranela