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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Escrever

A melhor maneira de divulgar seus contos

1 ) Esses dias um amigo meu me dizia que não se lembrava de nenhum grande escritor cuja carreira se baseasse unicamente em contos. A maioria dos nomes que imediatamente associamos ao conto, segundo ele, é de cultores de alguma outra prática literária. Borges e Poe também eram poetas e ensaístas, Tchekhov e Bábel dramaturgos, Otto Lara e Walsh eram jornalistas. Os russos (Tolstoi, Dostoievsky, Turguêniev), os americanos (London, Faulkner, Hemingway, Fitzgerald), os brasileiros (Machado, Rosa, Lima Barreto, Clarice), e muitos outros (Cortázar, Calvino, Wells, Kafka, Woolf, Flaubert), todos eram também romancistas. Deve existir por aí um exército de contistas “puros”, eu mesmo conheço um bocado, mas estávamos falando dos notáveis, aqueles que aparecem em quase todas as listas e antologias. Só me lembro de três: O. Henry, Schulz e Munro, que talvez tenham deixado por aí cartas ou diários, não necessariamente com intenções de publicar.


2) No caso da maioria dos romancistas citados acima: se falamos de contos em geral, rapidamente nos lembramos deles; se falamos deles, rapidamente nos lembramos de seus romances. Seus contos só aparecem adiante. O conto não vende, e editor nenhum quer publicar, ainda mais se o autor é inédito; uma regra boba dos mercados editoriais. Talvez seja esse o motivo pelo qual os contistas se dedicam também a outras atividades. Só que mais bobo ainda é encarar o conto como um treinamento para obras maiores. Um treinamento (em nosso caso, rascunhos e primeiras versões) é aquilo que não se mostra; os contos são obras definidas. Quem os lê não espera ali um preparo para algo maior; o conto não é um teaser: deve funcionar por si só.
 


3) Dizem que um escritor chamado Paustovsky, ao visitar Isaac Bábel, se espantou com uma pilha de manuscritos: “Finalmente escrevendo um romance?”, perguntou Paustovsky. “São os rascunhos de um conto”, respondeu Bábel. Não estavam ali todas as versões; eles contaram apenas vinte e duas. Ao leitor, entretanto, só interessa a versão final – treinamento é cada versão que ele jogou fora.


4) O conto geralmente é esquecido com mais facilidade. Primeiramente, pelo leitor. Uma mera questão de formatação – é mais difícil se lembrar de todas as 50 narrativas breves de um volume de Lydia Davis que de um romance do mesmo tamanho, com seus personagens definidos e seu único enredo. Lemos um conto numa revista ou antologia, junto com dezenas de outros textos, e naturalmente nos esquecemos de alguns. O livro como um todo é mais resistente.


5) Em seguida, pela História. As antologias de Borges, Hitchcock e Bráulio Tavares estão forradas de grandes contos desconhecidos. O romance Lolita foi inspirado num conto homônimo de um autor alemão sem muita fama. O outrora famoso contista e poeta Delmore Schwarz é bem menos conhecido que os romancistas que ele influenciou. Um bom escritor poderá fazer uma carreira baseada em um único romance, mas dificilmente conseguirá forjar uma carreira baseada em um único conto, ainda que estejamos falando apenas de obras-primas. Você compraria um livro com (ou por causa de) apenas um conto?


6) De acordo com Borges, não sem uma grande dose de ironia: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor extensos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos”. O trecho está no prólogo à primeira parte de Ficções. Borges inventou muitos romances, mas não escreveu nenhum deles.


7) Um romance é mais difícil de escrever que um conto. Sempre achei isso muito óbvio, e nunca entendi porque tem gente que afirma que não. Poderão discordar comparando O Jogador de Dostoiévsky, escrito num mês, com o tal conto de Bábel e suas vinte e duas versões; mas são exemplos extremos, escolhidos cautelosamente. Quantos romancistas não arrancam seus cabelos diariamente, durante anos, na criação de uma única obra? Quase todos. Dá muito mais trabalho fazer vinte de versões de um romance. Do mesmo modo, é mais difícil criar um longa-metragem que um curta, uma sinfonia que uma sonata, uma graphic novel que uma tirinha. É mais difícil simplesmente porque é mais longo.

8) Anunciá-lo, porém, parece interferir diretamente na autoestima de alguns realizadores das formas breves. Só que dizer que o romance dá mais trabalho não é de maneira alguma declarar superioridade; o que conta é a forma final. Não troco “Funes, o Memorioso” por muitos romances que devem ter dado um trabalho danado pra escrever. Acreditar que o mero gênero literário é indicador de superioridade é o mesmo que atribuir valor a um livro apenas porque levou muito tempo para ser escrito, ou ainda que dizer que um escritor é bom porque escreve com velocidade.

9) Não é incomum encontrar, em qualquer área, pessoas que atribuem autenticidade ao trabalho do amador, à obra feita nas coxas, sem nenhuma justificativa. No mesmo caminho, muitos estranhos me enviam contos, ensaios ou poemas sem eu pedir, ou os publicam por conta própria, anunciando de antemão que não foram revisados. Isso soa como uma defesa antecipada contra as críticas inevitáveis. Se não foi revisado, é porque não está pronto. Até sair algo bem feito, é muito difícil. E se não está pronto, por que enviar aos outros? Pior ainda, por que publicar?

(Essas últimas notas foram levemente baseadas nesse ótimo texto de Sérgio Rodrigues e nesse de Carol Bensimon. Aos que discordam, sugiro fazer o teste empírico: escreva um conto e um romance, o melhor possível, depois reescreva tudo e revise o quanto for necessário. Por fim, me diga qual deu mais trabalho). 


10) Machado de Assis escreveu 218 contos (publicou em livro “apenas” 76), sendo os mais conhecidos “A cartomante” e “A missa do Galo”. Faulkner escreveu 125 contos. O mais famoso é “Uma Rosa Para Emily”. Agora me pergunto: esses contos seriam tão lidos se seus autores também não tivessem escrito obras-primas do romance? Dom Casmurro traz público para “O Alienista”. Luz em Agosto sustenta Lance Mortal. Se não fossem seus clássicos, o irregular livro de contos policiais de Faulkner provavelmente estaria esquecido. É por isso que as grandes editoras só publicam volumes de contos de escritores já estabelecidos. É preciso se tornar Salinger antes de conseguir publicar Nove Estórias.


10) As melhores listas são feitas à margem. Os centros tendem a supervalorizar o que lhes é próprio. Uma lista francesa geralmente terá muitos franceses; uma alemã, muitos alemães; uma lista norte-americana ignorará todos os estrangeiros, quando não for inevitável. Já a lista da Bravo! “100 contos essenciais da literatura mundial” tem russos, ingleses, italianos, americanos, franceses, argentinos, árabes, alemães, gregos, japoneses e até brasileiros. Na lista estão Xaiver de Maistre, Buzzati, Yourcenar e Schitzler, autores, cada um, de um único romance realmente famoso, tanto que eu nem sabia que escreviam contos. Se não fossem os romances que lhes deram fama, estariam eles na lista? Não podemos afirmar, mas W. W. Jacobs escreveu um grande conto chamado “A Pata do Macaco”, que está na Antologia de Borges/Casares/Ocampo, mas em nenhuma outra lista que eu conheça. Apenas com seus contos, sem o Pedro Páramo, como nos lembraríamos de Juan Rulfo?

11) “Antologia” e “coleção” são palavras dúbias. Vamos considerar aqui “antologia” como a reunião de contos de autores diversos, e “coleção” como reunião de contos de um mesmo autor. As coleções podem ser organizadas de duas maneiras: os contos num volume sem correlação interna e num volume fechado, com uma ordem e uma unidade estabelecida. Os contos de Tchekhov variam de acordo com a edição, e tenho “A Dama do Cachorrinho” em duas coleções completamente diferentes, ambas com esse título. Já em todos os volumes de Ficções, os contos estão na mesma ordem e quantidade. Javier Marías publicou de antemão todos os seus contos, porém Quando fui mortal tem uma unidade bem particular, que não muda de uma edição para outra. Otto Lara Resende não publicou antes nenhum dos contos de Boca do Inferno, que foi planejado para funcionar como um todo, em livro, e obedece a uma unidade rígida – eles não devem ser lidos isoladamente. Os contos de A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, podem ser lidos separadamente, mas juntos formam um romance. Os livros de contos de detetive de Walsh, Borges, Chesterton e Conan Doyle não somente seguem a uma unidade, como também seus principais personagens são os mesmos. Já de Poe, apesar da manutenção do título, nunca vi duas edições de Histórias Extraordinárias em que o índice se repete. Eu tendo a gostar mais das coleções planejadas. Minhas favoritas quase sempre têm um tema unificador muito claro: Cathedral, de Carver (casamento); As Cosmicômicas, de Calvino (axiomas da ciência); Boca do Inferno, de Otto Lara Resende (perversidade com/de crianças); Sagarana, de Rosa (sertão mineiro); Adeus, Columbus, de Roth (judeus da costa leste); Todos os fogos o fogo, de Cortázar (nem sei explicar, mas tem); Três Contos, de Flaubert (idem); Vidas Imaginárias, de Schwob (a história do mundo); O Livro de areia, de Borges (história da literatura e gaúchos); Ao longo da linha amarela, de João Filho (o delírio soteropolitano); Perus, Malagueta e Bacanaço, de João Antônio (os subúrbios de São Paulo).


12) Ando pensando bastante sobre o conto porque finalmente estou escrevendo aquele livro que foi aprovado no edital. Tenho já um livro de contos pronto (abaixo falo mais dele), e fiz um projeto em que reuni os melhores contos soltos que tinha e tentei unificá-los. Agora, com o projeto em andamento, percebi que alguns deles simplesmente não cabem no contexto geral. Estou escrevendo outros, para completar a coleção, e estou lendo contos obcecadamente (esses livros das fotos, entre outros). Antes mesmo de aprovar meu projeto, tinha enviado sem muitas expectativas um conto para a belíssima revista Flaubert. Acabei publicando outro conto lá, e nem me lembrava mais desse. O conto se chama “Suspiros que cortam o ar”, e é o primeiro de um livro sobre cangaceiros, rixas, vinganças, bangue-bangue, essas coisas, que escrevi já faz algum tempo. É um de meus contos favoritos desse livro. Ele saiu exatamente essa semana, quando estou mergulhado em meu projeto, e já tinha planejado estas notas sobre contos. Foi uma boa surpresa. Ele pode ser acessado neste link (página 65).


Agora, respondendo à dúvida do título, a melhor maneira de divulgar seus contos é publicar antes um romance. Mas se você já publicou um romance, não faz mais sentido querer divulgar seu último conto com tanto afinco, pois o romance terá mais alcance e urgência. Provavelmente deu mais trabalho de escrever. Então qual a melhor maneira de divulgar seu romance?


Oras, publicar um conto na New Yorker.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A. T. A. [Armada de Traficantes de Almas]

Armada de Traficantes de AlmasRumo ao concílio da seita, nuvens de tags despencaram num temporal de bits gelados e doídos que nublaram completamente o pára-brisas do meu pequeno veículo. Parei o blindado vermelho-fogo num posto abandonado onde a sorte me entregou apenas quatro zumbis. Eles protegiam um pacote de biscoitos sujo de fuligem (esquecido numa prateleira baixa) e uma bomba cheia de combustível. Graças a isso consegui escalar ao topo do Umbral ainda dirigindo.

Lá em cima, escolhi uma trincheira e desembarquei armado com uma escopeta de elétrons e uma faca santa. Cruzei o bloco que me separava do ponto de encontro sem gastar munição, degolando apenas dois cadáveres ambulantes no caminho. Não havia nada que atraísse os zumbis para o velho cinema abandonado naquela madrugada jubilosa. Entrei sem problemas, mas notei alguém encolhido nos fundos, à espreita.

Trocamos um cumprimento de longe e nos reconhecemos. Nosso xamã chegara antes de todos. Usara de sua magia. Era um bom amigo e me saudou com alimento puro. Logo depois chegou o metamorfo ainda em forma caprina. Os restos de zumbis escorriam dos chifres na cabeça. Quando se transformou de volta em humano, a sujeira desapareceu. Assumindo esse outro disfarce, ele parecia um profeta, um mendigo. Um andarilho como eu.

Terminamos a primeira fase juntos em tempo recorde e aguardamos nossos consoles individuais salvarem o progresso. Calibramos os controles disparando palavras contra um novo professor cruel, preparando a decolagem pelo portal que surgiria em breve. Nossa nova missão era seguir direto ao resgate da esposa do xamã e dos filhotes do metamorfo.

Assim fizemos.

A garota estava aprisionada no matadouro de um homem de carne, refém de um salame aproveitador que enfiara-lhe prazeres estranhos corpo adentro. Os filhotes do caprino estavam junto dela, balindo. Todos reunidos como recheio de sonho. Resgatamos o grupo e destruímos o homem de carne com plasma de realismo. Ele era o chefe de fase e fechamos mais uma etapa. A pontuação não rendeu a fase de bônus e vimos o velho jabuti lamber nossa musa entre as pernas bem diante de nós. Estávamos indefesos. Ela gozava e ria.

Apelamos para os grande mestres. Do Tarantino, recebemos uma espada samurai cada um e o Nolan abriu o portal que nos levaria à próxima missão, mas foi Lhosa quem nos tirou dessa enrascada. Ele refletiu nobreza na nossa linguagem com letras espelhadas em noite de sol à pino. Usei a metalinguagem da caldela de um jovem mestre para nos enfiar na terceira e última fase: uma masmorra abafada dentro do porão de uma velha padaria sagrada. Agora os zumbis vomitavam álcool sobre nós. Encharcados e entorpecidos, usamos nossa última reserva de alimento para recobrar energia e vencer os mortos que restavam com moedas eletrônicas.

Voltamos pra fora e, ao avistar o blindado rubro-sangue, soube que o jogo estava próximo do fim. Sacamos espadas para desafiar os caçadores de escalpos e a briga foi ótima. O xamã desastrado me feriu de leve no ombro, mas era um bom amigo e não merecia retribuição. Depois, ele sacrificou-se no último portal para nos levar até o grande chefão da fase final:

Você.

Salve o jogo e não desligue o console enquanto a luz da lua estiver piscando.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Os de segunda em antologia



Quatro dos Escritores de Segunda compõem o time dos autores de Mecanismos Precários, antologia de contos organizada por Nelson de Oliveira e Claudio Brites, que será lançada no sábado 11 de setembro, num lançamento "bombástico" na sede da editora Terracota com direito a coquetel e show de jazz.

Esperamos poder contar com a presença de todos vocês. Compareçam!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

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Os melhores preços para bugus estão no Mercado Municipal. Dispostos em sacos de trinta quilos, para comprar por pugido, granel, baciada, arroba, dúzia, quilo. Para garantir que são frescos, expõem-se os bugus ainda vivos, as patas movimentando-se lerdamente no ar. Aqueles no fundo esmagados ou sufocados pelo peso dos de cima.

Magali diante dos sacos. Com a mão livre, escolhe os bugus. Verifica a cor da carapaça, estica as extremidades, cheira, sacode junto ao ouvido para sentir e escutar o balanço da seiva ou se chama pela mãe, observa a data de validade. O feirante tem a língua presa, de sua fala espalham-se perdigotos. Oferece à freguesa um canivete para descascar o bugu e sugere que ela prove as patas traseiras. Os gritos são inaudíveis na confusão do mercado, mas a ela tem o pudor de pinçar o cérebro para não correr o risco de escutar a agonia. Esmaga-o entre os dentes, sente o sabor de ressentimento e vaidade.

Com uma bacia pequena, seleciona os melhores: menos de uma dúzia de bugus gordos, redondos, falantes. O plástico é fechado com um nó estreito e empilhado juntamente com repolhos, bananas-prata e ouro, limão galego, cenouras, mandioquinha, cebola verde, meia dúzia de ovos de codorna, alho, maracujá, rúcula, abiu, tomates, postas de pirarucu, abacaxi, melancia. O saco estufa, um orvalho minúsculo forma-se nas paredes internas daquela bexiga. Magali retorna para seu prédio, ignorando as conversas dentro de suas compras. Os bugus concluem que a sobrevivência da maioria depende do sacrifício de outros para se poupar oxigênio. Há um sorteio ou uma briga. Um é estrangulado. No caminho dela, há um homem fétido sentado na calçada. Aguarda o final da feira, quando procurará por restos. Levanta a cabeça para coçar o pescoço e a vê, apressando o passo. Ele continua coçando enquanto exclama, lembra-se de mim, lembra-se de mim, eu sei quem é você. Intimidada pelos gritos, ela fixa os olhos na calçada enquanto arrasta seu carrinho de feira.

Em seu apartamento, é recebida pelo gato. Tira as sandálias, quer descalçar. O animal se esfrega em seus tornozelos e lambe, contente por existirem, os dedos dos pés. Enquanto esvazia o carrinho, o gato acompanha. Ela abre o saco, retira um bugu inconsciente e oferece para o felino. Este abocanha o presente e foge para a sala para deliciar-se na solidão. Magali lava as mãos, separa os temperos necessários. O fogão é acesso com um ruído elétrico, um fio de óleo é derramado sobre o fundo da panela, para refogar cebola, salsão, salsão, louro, tomilho. A panela chia. O amparo de ar fresco fornece uma sobrevida aos bugus. Eles tossem e se arrastam sobre a pia, próximo a tábua de corte. Ela se acorcora para buscar outras panelas que batem umas nas outras, num badalar cacofônico. O vestido sobe, expondo as coxas para ninguém, ela que está só na cozinha, a calcinha refletida no aço inoxidável ou sugerida sobre o teflon. Os bugus se animam uns aos outros e se levantam lentamente. Um deles rasteja na direção inversa à faca. Mas quando ela se coloca em pé, novamente, num gesto automática ela recaptura este fugitivo, quebrando suas costelas e carapaça, e o deita sobre a tábua de plástico cheia de marcas, antigos cortes como linhas de mão. A faca desce e decepa a cabeça deste antes de qualquer atitude. Então, com as mãos livres, ela irrompe o abdômen macio com as mãos, como quem abre uma tangerina. A faca é reutilizada para remoção das sementes. Parecem gotas de duas pontas. Ela recolhe uma e experimenta entre os dentes. Pressiona lentamente até irromper e esparramar seu conteúdo diminuto e amortecer a ponta da língua com sua paixão irrealizada. Os demais bugus choram e suplicam por suas vidas ou recolhem-se em suas carapaças fazendo suas preces.

Magali joga vinho tinto na panela com os refogados. Aproveita um tanto numa taça e mastiga outra semente. Quase distraidamente captura um a um os bugus. A maioria pede pela mãe, mas há um que cospe e xinga e caga. As cabeças são entregues para deleite do gato. Um consegue escapar com um talho na cabeça, mais falta de pontaria que por piedade. Porém, como todos os demais, seu corpo foi arreganhado, sementes extraídas e jogado na mesma panela que os cadáveres de seus companheiros, coberto de água, temperado com sal e pimenta-do-reino. A torneira limpa os resíduos, sucos e secreções da tábua.

Retiram-se os ingrediente após o cozimento, reza a receita. Durante este tempo, Magali prepara salsa verde: mistura ovos, salsa, vinagre, azeite, sal e pimenta a gosto. Em uma outra vasilha, mistura creme de leite e raiz forte que depois vão para o liquidificador que urra enquanto sua lâmina recorta a densidade daquele líquido. Experimenta com o garfo um a um os bugus cozidos na panela e descobre que alguns não estavam no tempo certo. Suspira. Lava as mãos com detergente de cozinha para desodorizar os dedos. Inspira procurando vestígios de alho ou de sangue, mas tudo é inodoro.

Entreabre a calcinha, enfia o fura-bolos e o pai de todos. Prova o sabor. Está bom. Só então molha a colher de pau em sua vagina e aproveita seu gosto para corrigir o tempero e a distração. Numa travessa grande, coloca os bugus e os legumes. Rega com um pouco do caldo, mas aproveita o restante no liquidificador, onde é batido e retorna ao fogo lento até adquirir consistência de molho. Ela coloca o timer e vai para a sala esperar o toque assistindo à TV de domingo. Neste momento, ela recebe um telefonema. Espera que seja o namorado que vai fazer uma prova de concurso público.

Mas é uma amiga que acabou de fazer a operação de redução do estômago. A amiga se sente deprimida e quer conversar. Sente falta de algo para culpar. Diz que descobriu que seria possível beber leite condensado, com o tempo ela recobraria seu tamanho e seu peso. Ela procura animar a amiga e fazê-la esquecer desta ideia, mas não convence nem a si mesma. A conversa remete ao tempo em que enfiavam os dedos nas gargantas uma da outra até expelir o conteúdo do que comeram. Mas elas já não eram crianças.

Na tela do eletrodoméstico, um astronauta enfrenta um tiranossauro. O timer dispara e ela usa isto como desculpa para desligar. Vai a cozinha, apaga o fogo. Retira a travessa dos bugus e posiciona um prato vazio para seu lugar na mesa. Os talheres são colocados. Um copo de água filtrada. Um bugu é colhido na concha e finalmente chega ao prato. O molho é derramado como um cobertor cremoso. Ela não tem como saber, estão todos desfigurados e irreconhecíveis pela fervura e imersão de temperos, mas aquele é o bugu que resmungou algo antes de perder a cabeça.

Admira a mesa posta. O gato está na janela, observa a paisagem de viadutos. Na sala, o filme foi interrompido por um comercial cheio de gente bonita e com dentes perfeitos. Magali bebe o copo d´água. Garfo e faca voltam para sua gaveta, limpos. Recolhe travessa e guarda no forno o almoço, prato na geladeira. Magali deixa a cozinha, deita-se no sofá sob o sol pelo resto da tarde. Sonha com pipas e coelhos azuis.











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