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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Escrever Desenhar Criar

Que horas o quadrinista sai da cama?



Érico Assis


O estúdio de Eduardo Risso tem janelões com vista para o Rio Paraná. A linha do horizonte fica lá longe. Algum autor já me disse que Risso é sua inspiração. Não pelo traço e pela estética, ou não só, mas pelo plano de carreira, pelo entendimento do que quer da vida e do que quer da carreira artística. E provavelmente por causa daqueles janelões.

Não sou quadrinista, mas estou sempre em busca de inspiração como essa. Escrevo, traduzo, gosto de aprender e entender as minúcias de como escreve bem e traduz bem quem escreve bem e traduz bem. Mas também sou um profissional independente trabalhando no mercado cultural com essa coisa amorfa e instável e sem chefe e sem garantias chamada autonomia. E preciso saber como vive quem vive na mesma condição.

Do que se alimentam? Que horas acordam? Trabalham em casa ou têm um estúdio fora de casa? Que horas pegam no batente? Que horas largam o batente? Que bonequinhos têm na mesa? O que fazem no dia que não estão a fim? O que fazem com a culpa pelo dia que não rendeu e, depois, o que fazem com os boletos? Como negociam o horário com o/a conje? E os filhos? Eles tiram cochilos? Pode tirar cochilo? Como evitar o Twitter? É feio trabalhar sem calça?

Masters of Comics é um livro feito para tirar estas dúvidas. Ou eu gostaria que fosse. O título é brega e o método não é nada científico: o autor, Joel Meadows, entrevistou 21 quadrinistas a respeito de seus estúdios e método de trabalho. Alguns deram detalhes até demais, outros foram lacônicos. E é um livro mais de fotos do que de texto. Não há créditos das fotos, então suponho que o autor pediu aos próprios autores para fotografar os espaços de trabalho. Num dia que teve faxina, claro.
Milo Manara passa a manhã se planejando, começa efetivamente pelas 15h, para pra jantar e vai até as duas da matina. Frank Cho começa às 21h e para às 5h. Tim Sale acorda cedinho, trabalha um pouco e volta pra cama para acordar com a esposa. E o Michael Kaluta... bom, o Michael Kaluta responde o seguinte:

Tem épocas em que eu trabalho. Quando eu trabalho, trabalho até cansar. Depois eu vou dormir, acordo e aí trabalho até cansar. E não dou bola para o relógio, porque não faço muita coisa fora de casa. Só que, quando estou naqueles dias, não sai nada. Aí passam duas, três semanas e eu noto que perdi um tempo que queria que voltasse. O que eu não fiz naquele tempo era o que eu devia ter feito. Hoje eu tenho noção. Tenho idade para saber que a carreira tem suas marés. Aprendi há anos, vendo o Bernie Wrightson, que se você quer que uma coisa saia, você acorda e vai trabalhar. Você não vai buscar café nem vai responder e-mails. Você vai lá e começa a trabalhar. E aí você trabalha uma hora, pode parar e fazer o que for e depois volta a trabalhar. Mas se você espera – se eu espero – pode acontecer de eu só pegar no batente às 22h, mesmo que tenha levantado de manhã.

Ou seja: não tenho expediente.

Kaluta também comenta da época em que dividia estúdio com outros. Ele abria a porta para Jeff Jones às 6 da manhã, Wrightson chegava umas 10 ou 11h e Barry Windsor-Smith só depois do almoço. Saíam para jantar juntos. Várias vezes Kaluta preferiu desabar num colchão do estúdio em vez de voltar pra casa, mesmo quando Windsor-Smith procrastinava tocando violão.

Houve também o estúdio Upstart, que abrigou ao mesmo tempo Walt Simonson trabalhando em Thor, Frank Miller trabalhando em Demolidor e Howard Chaykin trabalhando em American Flagg, todos no mesmo recinto. A impressão que o livro dá é que os estúdios coletivos são coisa do passado. Frank Quitely é o único que diz que gosta de trabalhar com colegas na volta – o estúdio dele e dos amigos até já apareceu num documentário.

Aliás, me surpreendi em saber que o estúdio fora de casa, individual, é uma realidade para poucos. E que não é uma questão de ter ou não grana para sustentar um estúdio fora de casa, mas de índole.
Risso, por exemplo, diz que pensou na família: prefere ter estúdio fora para, em casa, só pensar na esposa e nos filhos. Sean Phillips, porém, também diz que pensou na família: mudou seu estúdio para casa porque queria ver os filhos crescerem.

Yuko Shimizu tem o estúdio à parte e nem tem internet em casa porque quer uma coisa bem separada da outra. P. Craig Russell, sobre trabalhar em casa: “[Tem] a conveniência e o conforto, mais o acesso a todo material de referência que eu precisar. E à geladeira.” Russell, porém, às vezes vai trabalhar na biblioteca pública.

Bill Sienkiewicz:

Eu era muito mais regrado na época que trabalhava em Novos Mutantes. Saía do meu estúdio em Westport à noite e passava por um banco com um relógio gigante que ficava alternando horário e temperatura; na maioria das vezes, eu passava ali quando ele piscava exatamente 12h34; três de cada cinco noites, no mínimo. Nas outras noites era questão de um ou dois minutos a menos ou mais. Na época eu não usava relógio. Era um cronograma internalizado.

Questionado sobre como evitar distrações, Tim Sale diz que não é fácil e “aliás, eu devia estar trabalhando”. A entrevista acaba duas perguntas depois, mais curta que as outras.
Dave Johnson diz que todo dia pode ser um Dia Sem Calça, mas como todo dia pode ser Dia Sem Calça, não tem graça não usar calça. E fala dos conges: “É essencial que você fique com uma pessoa que entende que você, sendo artista, provavelmente é péssimo em administrar o tempo. Mas ainda assim aquela pessoa te quer pra vida.”

Tem outras conversas em Masters of Comics, papos que provavelmente interessem mais a quadrinistas de verdade: o que pensar primeiro na página, analógico versus digital, material de referência, qual a marca do nanquim. Meu negócio, porém, é organização pessoal. Já fui atrás de várias referências, não só de quadrinistas, e a conclusão é sempre a mesma: a autonomia é uma coisa amorfa e instável e sem chefe e sem garantias e cada um é cada um. Não existe modelo de conduta perfeito a copiar, mas só jeitos que cada profissional encontrou de se (des)organizar para produzir.
Compreendo isso, baixo a cabeça e, ainda não convencido, sigo me inspirando num detalhe ou outro da organização de cada autor, tradutor, quadrinista e autônomo que eu admiro. Sigo na ilusão de que vou chegar no modelo de conduta perfeito, diário, correto, feliz e produtivo. Sigo sem calças.



Capa do Batman por David Rubin

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Escrever

Macroplanejadores e Microgerentes





Martha Batalha
 (VIA_ )


Em palestra para o curso de escrita criativa da Columbia University, a escritora inglesa Zadie Smith dividiu os escritores em dois grupos – os macroplanejadores e os microgerentes. Macroplanejadores só iniciam o processo criativo depois de extenso planejamento. São dedicados no processo de pesquisa, generosos em notas e precisos em seus cronogramas e linhas do tempo.

É possível reconhecer um macroplanejador pelos post-its e moleskines. Lembra aquele colega de escola que todos tivemos, que tinha o caderno mais organizado e usava canetas coloridas para dividir assuntos e matérias. A segurança de estrutura possibilita aos macroplanejadores a liberdade de movimento – não é incomum começarem um romance pelo meio. Na medida em que progridem, as escolhas aumentam – podem escrever múltiplos finais, tirar e incluir personagens, mudar o local de um livro de Londres para Berlim ou alterar a ordem dos capítulos.

Microgerentes são aqueles para quem o livro só acontece no momento presente – uma sentença leva a outra, e a outra. Por isso as primeiras 20 páginas são as mais importantes e difíceis de escrever. Definem perspectiva e voz, e formam a base do processo subjetivo adotado por este tipo de escritor. Um microgerente pode passar meses reescrevendo essas páginas até encontrar o tom que deseja seguir. O resultado pode levar a um início de romance engessado, com frases por demais trabalhadas, em que o leitor consegue perceber o esforço exagerado do escritor. Mas apesar do sofrimento implícito e perceptível, superar estas primeiras páginas conduz a um livro que se escreve com facilidade. Preocupar-se com as 20 primeiras páginas é uma forma de se preocupar com o romance inteiro. Uma forma de encontrar sua estrutura, enredo e personagens, elementos que para um microplanejador estão contidos na sensibilidade de uma sentença.

O escritor James Patterson, que já vendeu mais de 300 milhões de exemplares, é um exemplo de macroplanejador. Constrói seus livros a partir de uma estrutura anterior à elaboração dos capítulos, e durante meses alimenta esta estrutura com apontamentos para cenas e diálogos. Quando termina o processo, afirma, o livro está praticamente pronto. Só é preciso seguir o roteiro estipulado. Ken Follet é outro autor de best-sellers que segue processo semelhante. Primeiro define a estrutura, para depois desenvolver os capítulos.


Pode-se dizer que o gênero destes autores – ficção popular – é compatível com o excesso de planejamento. Tanto Patterson quanto Follet escrevem livros que precisam manter a atenção do leitor a cada quatro ou cinco páginas, e que por isso seguem um padrão. Seus livros lembram os capítulos de uma novela brasileira – toda a noite a trama termina com um suspense que será solucionado no dia seguinte. Alguns dias depois o espectador nem se lembrará do que tanto o preocupava naquela noite de quarta-feira. Haverá outras reviravoltas, descobertas, traições.

Mas nem todos os autores de best-sellers trabalham assim. Stephen King não acredita em planejamento. Para ele, estruturar um romance mata a espontaneidade do processo criativo. King define o processo como um estado de transe que anula o tempo – parte de seu trabalho como escritor, ele diz, é sonhar acordado. O escritor de livros policiais Lee Child trabalha da mesma forma. Certa vez um pesquisador da universidade de Cambridge pediu para acompanhá-lo durante o processo de escrita de um livro. No primeiro parágrafo do livro, Child descreveu a morte de um personagem chamado Keever. O pesquisador perguntou a Child quem era Keever, e o que tinha acontecido com ele. Child respondeu que não tinha a menor ideia – só depois de escrever dois terços do livro é que a trama começou a fazer sentido, até mesmo para ele.

Esse processo de escrita que não passa pelo racional é mencionado por muitos outros escritores. Hemingway dizia que depois de um dia de trabalho é preciso se esquecer completamente do que foi feito, para o subconsciente alimentar o trabalho do dia seguinte. Elena Ferrante descreve sua frantumaglia – pedaços de sentimentos e memórias que habitam a mente de uma pessoa. No caso de um escritor, parte deles obedecem a uma ordem, e começa ali o processo narrativo. Sue Grafton descreve seu relacionamento com o lado direito do cérebro – quando está diante de um impasse na narrativa escreve notas para ele, pedindo ajuda. Zadie Smith fala do meio de um romance, em que acontece um processo de pensamento mágico: “O tempo entra em colapso, você senta para escrever às nove da manhã, pisca e já é de noite. Na tela estão 4 mil palavras, mais do que você escreveu em três meses de trabalho”.

Alcançar e manter este fluxo criativo não é um processo fácil ou contínuo. George Saunders demorou quatro anos para escrever o conto “Dia das mães” (o que ele se permitiu fazer por ganhar a vida como professor, e por ter a paciência e a sabedoria exercitadas em décadas de meditação). Mark Twain acreditava que alguns romances e histórias inacabados precisavam ser esquecidos por alguns meses ou anos, para o autor voltar a eles com nova perspectiva e energia. “Rezar pode ajudar”, afirma Margaret Atwood, num conselho sobre escrita que reconhece o desespero inevitável do processo.



Macroplanejadores diminuem riscos e sofrimento ao tentar controlar os caminhos subjetivos da escrita, mas também perdem no processo parte do prazer. “Existe algo de maravilhoso ao ver uma figura emergir de uma pedra, ao sentir a presença de algo com você, e além de você. Alguma coisa consistente e boa, cujo objetivo parece ser o de levá-lo a uma existência superior”, diz George Saunders, para quem o verdadeiro artista sempre trabalha fora do domínio da lógica.

Para os macroplanejadores a figura também emerge da pedra, mas eles estão ali, já certos do formato que desejam construir. Ou, usando outra metáfora, agora de Zadie Smith – enquanto microgerentes constroem uma casa quarto por quarto, macroplanejadores constroem a casa para depois mudar a mobília de lugar –, podem começar a escrever um romance do meio para o início ou final, mudam o sexo dos personagens, criam diferentes desfechos.

Não existe resposta certa, apenas a escolha de um caminho que torne a escrita viável. “O escritor é aquele que, enquanto trabalha, não sabe o que está fazendo”, afirma Donald Barthelme. Penso que a afirmativa funciona tanto para microgerentes quanto para macroplanejadores. A diferença é que os primeiros dão um passo no escuro, enquanto os últimos acendem a luz, conferem o caminho, e depois fecham os olhos para melhor sentir os passos.


 

 Imagens: análise de composição em quadrinhos por Nick Sousanis - twitter @Nsousanis - VIA