Escrever é reescrever: 6 ideias sobre reescrita
(Jose Reiners Terron. AQUI)
A quem escreve, permite-se um movimento semelhante ao da respiração, de trás para frente e da frente para trás, e disso se trata escrever.
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1. SÍNTESE
O bom, se breve, duas vezes bom, afirmou Augusto Monterroso. É verdade, mas nem sempre. A própria obra do escritor guatemalteco é bom exemplo disso. No entanto, Monterroso escrevia textos curtíssimos: contos, fábulas e ensaios fragmentários quase sempre de extensão pouco maior que a de um aforismo. Seu único romance, O resto é silêncio, além de fragmentário, ocupa pouco mais de cem páginas. Ou seja: Monterroso predicava pela própria causa. De fato, a economia de meios, se relativa à verbosidade, ao uso desnecessário de palavras, é algo a ser evitado. Em textos prolixos ou minimalistas, tanto faz, o ideal é que a escrita seja precisa e sintética. Parece contraditório, mas não é: Ezra Pound desconfiava de sinônimos: para cada situação, sentimento, ação a serem descritas, existe apenas a palavra exata.
Portanto, a economia deve evitar o desnecessário e valorizar o necessário, independentemente se o estilo for esbanjador ou avaro. Promover a síntese em vez da ampliação. Ressalto que me refiro à frase e à sintaxe. Enquanto a trama pode viajar ao espaço sideral, o texto permanece com os pés bem firmes no chão.
2. OLEOSIDADE
Um princípio pode conter o seu contrário, é claro. No caso do romance maximalista, como Moby Dick ou 2666, onde entra a economia? Sem dúvida, na elaboração da frase, em sua construção lógica, mas não necessariamente. O caos linguístico pode afetar a construção frasal em romances experimentais. O que dizer do indecifrável Finnegans Wake, de Joyce? Grande Sertão: Veredas, por exemplo, não pode ser compreendido em termos de precisão ou economia. A própria palavra que o inicia, "nonada", é a junção de um artigo (no), hesitação (no também pode ser entendido como um gaguejar que imita as hesitações da oralidade), negação (no como contrafação de "não"); é, enfim, uma soma de palavras, uma palavra-valise ou portmanteau word que reúne várias outras, como "motel" ou "showmício". Esse recurso prima pela economia ou pelo esbanjamento? Nem uma, nem outro: talvez prime pela síntese e pela velocidade. Hilda Hilst valorizava Ricardo Guilherme Dicke, autor de Madona dos Páramos, por sua oleosidade, sua "magnífica prolixidade". Entre nós, palavras como salafrário, barafunda, estapafúrdio, geringonça, espalhafato, escalafobético, lambisgóia ou sorumbático parecem apontar para a palavra-valise. No Brasil, "a palavra-montagem não é rara na linguagem popular, oral, no linguajar despoliciado, na fala, na gíria, lugares onde ela é uma das maneiras que a língua utiliza para enriquecer seu vocabulário", afirmou Paulo Leminski.
Complemento: também é uma maneira de atuar contra a pasteurização da língua promovida pelo mercado, além de marcar posição diante da singularidade do português brasileiro.
3. RITMO
Uma questão relativa ao nosso tempo, que igualmente abriga posição contrária: a lentidão. É bem sabido que temos pouco tempo, afirmação infelizmente nada ambígua: nosso cotidiano é curto, e a ideia de futuro anda em baixa. A consequência é o predomínio do texto veloz, que conduz a leitura. O termo "fluência" virou um clichê tanto de oficinas quanto nas resenhas literárias (quando se referem à qualidade da tradução, mas não somente, considerando um tipo de agilidade leitora em geral vinculada à literatura comercial). O comentário sobre livros adaptou a expressão "vira-páginas" (do inglês "page-turner"). No entanto, a velocidade, por si só, não é garantia de qualidade textual. Parece mais um sintoma de certa aversão ao complexo, ao exigente, ao "difícil", em suma, marca do anti-intelectualismo e da ingenuidade que contaminou o mundo da leitura. Por outro lado, há narrativas que exigem certo ritmo acelerado, e podem perfeitamente ter qualidade. Na ficção originalmente identificada como popular, por exemplo, distinção que já não faz sentido, a velocidade é elemento de considerável importância: no romance policial, ou na ficção científica. Isso não impede que um dos maiores autores da FC atual, Ted Chiang, seja difícil — pois explora conceitos científicos complexos — e, ao mesmo tempo, popular, graças à adaptação de seus filmes para o cinema (viram A chegada, de Denis Villeneuve?). Nesse sentido, a velocidade — que não é única, afinal, pois pode ser a 30km/h ou a 800km/h — deve atender à necessidade do texto que escrevemos, que, inclusive, pode ser variável. É notória a defesa que Agatha Christie fazia do ritmo veloz ao final de suas narrativas.
4. VEROSSIMILHANÇA DE LINGUAGEM
Verossimilhança não se trata de conceito que se atenha apenas à ambientação realista de uma determinada trama. Também o realismo de uma narrativa se estabelece por meio da linguagem. Por exemplo, a adequação da fala dos personagens ao ambiente onde se encontram, ou à sua origem. Riobaldo, o vaqueiro narrador criado por Guimarães Rosa, fala de modo ao mesmo tempo único (pois se trata de estilização artificial sintetizada pelo autor mineiro) e evocativo da fala sertaneja. Agora, acreditamos que essa fala se refira ao sertanejo, mas antes de ouvirmos Riobaldo, de essa possibilidade existir, pensaríamos assim? Eis a verossimilhança: ela cria um padrão que antes nem sonhávamos existir. A verossimilhança determina, antecipa e estabelece, simultaneamente, esse padrão. E nisso deve estar a preocupação dos autores em relação ao verossímil: como fala o personagem, decorrente desta classe social e oriundo de tal lugar? Melhor: como falaria, caso existisse, qual a peculiaridade específica da música que emite sua voz?
5. PENSAMENTO
Copio o que Samanta Schweblin afirmou numa entrevista: ""O autor pode construir a maquinaria que quiser, mas não pode pisar no pé do outro. Aquilo que diz o escritor é acompanhado do pensamento do leitor, mas o texto não deve dizer esse pensamento. Há coisas que acontecem na página e outras que acontecem na cabeça de quem lê, e as duas não devem pisar uma na outra. Você tem que abrir espaço ao outro, se não, dança sozinha."
Costumo dizer que o trabalho do autor corresponde apenas a 50% do total, a outra metade corresponde à leitora. Quando digo isso, não me restrinjo apenas ao ato de ler, mas ao cinema visual que a mente de quem lê projeta no teto do quarto ou na parede em frente à poltrona, ao texto que surge na mente enquanto se lê, um texto que se constrói nas entrelinhas, não no corpo do texto principal. O texto literário acontece em dois lugares, na página e na cabeça da leitora. Portanto, cada texto gera outros tantos, infinitos, existentes na cabeça de cada um. Antecipações, perguntas retóricas, respostas que não devem ser dadas, didatismos de toda espécie devem ser evitados. São o "pé do outro" que não deve ser pisado nessa dança do pensamento.
6. EXPANSÃO/CONTRAÇÃO
Em sua tese sobre a obra de Roberto Bolaño, o poeta e tradutor (do próprio Bolaño) Chris Andrews desenvolve a teoria do Big Bang, ou o método expansivo da escrita do chileno, a partir da anedota sobre Estrela distante, o livro expandido do último capítulo de Literatura nazista na América: ao visitar o editor Jorge Herralde, da Anagrama, que manifestou interesse por publicar Literatura nazista, Bolaño lhe contou que, infelizmente, o livro tinha sido contratado pela Seix Barral. O editor, entretanto, manifestou que gostaria de ler a próxima coisa que ele escrevesse. Sem se fazer de rogado, Bolaño voltou para casa e expandiu o último capítulo de Literatura nazista, ou seja, o verbete dedicado ao personagem Carlos Ramírez Hoffman, "No prólogo de Estrela Distante, o autor explica que explodiu o capítulo final de Literatura nazista na América a pedido de 'um colega chileno, Arturo B', que 'teria preferido uma história mais longa que, em vez de espelhar ou explodir outras, fosse, em si mesma, um espelho e uma explosão'. A explosão que ocorre em Estrela Distante não destrói totalmente o texto anterior, mas o divide em fragmentos, que são conservados e explorados na nova e mais ampla estrutura", revela Andrews.
Essa espécie de método de cissiparidade, na qual uma célula narrativa se reproduz gerando outras, é o que ocorre normalmente no ato criativo da composição de um texto. Por outro lado, o movimento oposto também pode ocorrer, à medida que se constata a inadequação de determinadas passagens, cenas ou fragmentos, resultando na contração do texto. Ne verdade, esse movimento de expansão/contração parece ocorrer o tempo todo, na medida em que a escrita não corresponde ao mesmo movimento da leitura, ao menos de um romance: frase atrás de frase, parágrafo atrás de parágrafo, página atrás de página, capítulo atrás de capítulo etc.
A quem escreve, e somente a quem escreve, permite-se um movimento semelhante ao da respiração, de trás para frente e da frente para trás, e disso se trata escrever.
2024 © Joca Reiners Terron
(imagem Caza)

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