sábado, 30 de abril de 2011
Dedilhado
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DEDILHADO - Palavra que designa em música a melhor disposição dos dedos para a execução de um intrumento. Entre os alaudistas da Ásia Menor no século XVII, os dedilhados de Yuçuf Maçudi eram particularmente valorizados. A expressão "dedilhado do demônio" significa que esta passagem é de uma extrema dificuldade. Existe uma versão hispânica desse "dedilhado do demônio", utilizada pelos mouros.
Esse dedilhado só é conservado numa forma adaptada para o violão. Pode-se observar que o demônio tocava, empregando além dos dez dedos um undécimo dedo: segundo a lenda, era deste modo que o demônio utilizava a cauda.
Alguns dizem que o "dedilhado do demônio" possuía, em sua origem, um significado completamente diferente - na verdade revelava em qual ordem proceder para fabricar ouro, ou ainda como dispor as árvores frutíferas no pomar, se se quisesse colher frutos frescos do início da primavera até o outono. Somente mais tarde foi usado como dedilhado em música, de modo que uma sabedoria nova escondeu e enterrou outras sabedorias, mais antigas. Seu mistério pode, portanto, ser transmitido em todas as linguagens dos cinco sentidos, sem nada perder do seu poder.
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MILORAD PAVITCH - O DICIONÁRIO KAZAR (edição masculina)
(Cena do filme grego "Dogtooth" (Dentes caninos?) indicado a Oscar de filme estrangeiro. VIA.)
segunda-feira, 21 de março de 2011
4 de outubro
Tenho maus olhos, eu, a quem tanto comprazem os livros. Qualquer esforço maior prejudica-os; o meu gosto de ler é temperado pelo risco. Com o globo ocular um tanto dilatado (acontece, olhando-me no espelho, pensar que as córneas vão cair dentro da pia), tenho um ar alucinado e pareço incrédulo diante do mundo, o que é certo.
OSMAN LINS _ A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA
quarta-feira, 16 de março de 2011
Ata arrepiada

Oxossi. Cunhã. Ogun. Nunca os segundeiros foram tão imolativos, evocativos. O pai de santo chegou, vestido propriamente. Recebeu elogios pela indumentária. Mas logo interrompeu a sessão de cumprimentos. “Vamos logo à cerimônia”, disse circunspecto. “Temos muito a fazer”, concentrou-se e abriu os trabalhos. Além das Nanãs presentes, galinha, muita galinha, mesmo que com sabor russo. “O que importa é a intenção”. E eles regozijaram nas intenções. Pelos presentes, pelos ausentes sobretudo. Cerimônia de letras, incorporações, evocações e, depois, risos, que a saudade era muita. De provocar os que não foram, mas ligados na mesma sintonia. Arrepios ao longe, chegando em ondas e abençoando o encontro. Arrepios bem perto nas ruas da noite da cidade que queria adormecer. Com ou sem teto.
(imagem Pierre Verger. Via Photojournal)
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
balcão

Seu neto também se chamava Francisco. Lá estava ele do outro lado do balcão. Quiseram abrir espaço, avisá-lo para pegar a fila dos idosos e deficientes. Ele se recusou, acreditando que o faziam apenas por aquele lá do outro lado do balcão ser seu neto. Francisco não queria favorecimento. Precisaram insistir muito, e foi uma estagiária (tirando o piercing e o cabelo azul, pareceria Rosa) quem o convenceu. Um outro senhor, de aspecto mais urbano, tentou puxar conversa. Francisco evitava estes outros velhos das filas: costumavam reclamar de tudo, de todos, do mundo (era uma forma de evitar reclamar de si mesmo, de Deus, de tudo). Mas aquele velho era diferente. Comparou o tempo de antigamente e o de hoje e afirmava: este era o melhor tempo de todos. Francisco ouviu, mas não queria saber muito. Pensava nas galinhas, na chuva, na plantação. Ficou cabisbaixo: fitou os próprios pés, confinados em sandálias, ambos pareciam do mesmo couro ressequido. Francisco não era dado a fantasias, mas esquecera de um sonho no qual formigas se confundiam de caminho e faziam um ninho ali na sola, entre os dedos cor de pedra. O painel mudou de cor, e foi seu neto quem o chamou para ser atendido.
O neto não pediu benção nem nada. Francisco jamais ia falar com a vó ou com os pais sem pedir a benção. O neto tinha um fiozinho que saía de sua orelha, o velho lembrou-se de uma pescaria na qual levara o neto e este chorara no mesmo desespero do peixe vivo lutando para sobreviver. Agora ele mesmo se enganchava nos anzóis. O assunto que os parentes tinham era chato demais para desenvolver aqui: percentuais, juros, safra, terras. Francisco ouvia, mas não escutava. Deve haver uma hora para se usar calçados; uma hora para sair do mato; de perder a dó de matar galinhas; de aprender a falar direito; de deixar de roubar goiaba. Chega uma hora de deixar de ser Chico. Foi neste momento que Francisco percebeu que perderia sua terra para os homens que viviam atrás do balcão.
(imagem Sebastião Salgado - Sem título - 1983. Fonte: Antropologia Social.)
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Os escritores assassinos

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Ano 2000. Entre as gélidas correntes do rio Oder, perto da cidade de Wroclaw, na Polônia, pescadores vêem um corpo boiando. Ao levá-lo para terra, as autoridades o identificam como Dariusz Janieszewski, dono de uma empresa de publicidade e membro de média importância na comunidade. Janieszewski havia desaparecido dias antes, e em seu corpo foram encontradas marcas de tortura. A causa de sua morte foi afogamento. O assassino, ao que parece, depois de torturá-lo até se cansar, limitou-se a amarrá-lo e jogá-lo no rio.
Tempo depois, o escritor Krystian Bala, filósofo com aspirações literárias, lança seu romance Amok. Nele, narra um assassinato muito parecido com o de Janieszewski. O livro, sem êxito de vendas, alcançou certa relevância no mundinho literário da Polônia e, graças a esta fama, um funcionário da cidade fez comentários na Internet sobre o crime e a obra de Bala.
De imediato, a polícia de Wroclaw prendeu o autor, a quem interrogou por 72 horas. Por fim, Bala foi liberado por falta de provas. A imprensa se revoltou contra a polícia e considerou o autor vítima da negligência das autoridades e do desespero por encontrar (ou fabricar) algum culpado pela morte do empresário. Bala aparentemente não conhecia a vítima e não havia motivo para que o escritor matasse o empresário. Mas a polícia não desistiu e, com uma investigação mais detalhada, descobriu que o filósofo havia conversado com Janieszewski no dia de seu desaparecimento. Depois, descobriu que o telefone celular da vítima, que não fora encontrado com o cadáver, havia sido vendido na Internet quatro dias depois do crime. O vendedor? Krystian Bala.
Faltava apenas uma peça para fechar o caso: não havia motivo para o crime. A polícia buscou pistas entre os conhecidos de ambos e descobriu que Bala era, na época do desaparecimento, amigo íntimo da ex-esposa do empresário. O autor foi novamente preso e, então, indiciado por homicídio. Apesar de alegar sempre inocência, foi condenado a 25 anos de prisão pelo assassinato do publicitário. Em sua defesa, alegou que havia se inspirado no crime para fazer seu livro, e que havia recolhido os detalhes da imprensa. Mas, segundo as autoridades locais, os trechos do livro são por demais exatos e mencionam dados que apenas a polícia conhecia. Graças à polêmica, Amok tornou-se um best-seller.
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(Para ler o texto completo, com outras histórias de escritores assassinos, clique AQUI. Outros links para Kristian Bala: AQUI AQUI ou AQUI. Via Revista Speculum)
domingo, 30 de janeiro de 2011
Prosa espontânea de Jack Kerouac.

"this is Jack Kerouac’s list of 30 essentials from Belief and Technique for Modern Prose explicating in writing his Spontaneous Prose method:
- Scribbled secret notebooks, and wild typewritten pages, for your own joy
- Submissive to everything, open, listening
- Try never get drunk outside your own house
- Be in love with your life
- Something that you feel will find its own form
- Be crazy dumbsaint of the mind
- Blow as deep as you want to blow
- Write what you want bottomless from bottom of the mind
- The unspeakable visions of the individual
- No time for poetry but exactly what is
- Visionary tics shivering in the chest
- In tranced fixation dreaming upon object before you
- Remove literary, grammatical and syntactical inhibition
- Like Proust be an old teahead of time
- Telling the true story of the world in interior monolog
- The jewel center of interest is the eye within the eye
- Write in recollection and amazement for yourself
- Work from pithy middle eye out, swimming in language sea
- Accept loss forever
- Believe in the holy contour of life
- Struggle to sketch the flow that already exists intact in mind
- Don’t think of words when you stop but to see picture better
- Keep track of every day the date emblazoned in yr morning
- No fear or shame in the dignity of yr experience, language & knowledge
- Write for the world to read and see your exact pictures of it
- Bookmovie is the movie in words, the visual American form
- In praise of Character in the Bleak inhuman Loneliness
- Composing wild, undisciplined, pure, coming in from under, crazier the better
- You’re a Genius all the time
- Writer-Director of Earthly movies Sponsored & Angeled in Heaven"
(Via Literary Lovers)
(Foto Phillipe Halsman.)
domingo, 2 de janeiro de 2011
Nº08: Ciranda
Já passa da meia-noite, os passageiros desembarcam do trem com pressa, no desespero de não perder o último ônibus, que se ainda não saiu, está em vias. João gostaria de correr, mas está mancando, pé torcido. A estação é antiga, não tem elevador e você precisa chegar até a escadaria. Vontade de abordar a um destes estranhos: “Pede para o motorista esperar, pede para ele segurar só mais uns minutinhos, que eu já estou chegando.” Todavia esta não é uma cidade pequena; se fosse não haveria metrô. Uma cidade pequena, na qual todos se conhecem, cheia de pequenos segredos notórios, coberta pela vigilância dos vizinhos divididos entre repressores e calorosos. Aqui é cada um por si. E João acelera o que a dor permite acelerar, enquanto os demais se distanciam. Fica por último na corrida, passo a passo até alcançar o corrimão da escadaria fixa. João prestes a subir aqueles degraus todos quando vê no alto, no sentido oposto, diante da escada rolante: Maria.
Dali de onde está, João não tem certeza se Maria o viu. Improvável, pois a conhecendo do jeito que é, tão desconfiada, ciumenta, emocionalmente instável. João sabe que Maria não anda tomando seus remédios direito, mas ele não insistiu, nem tentou convencê-la do contrário. No fundo, João concorda com as queixas de Maria: sente sua letargia, a ausência do viço nos olhos, ressecada, quieta. Agora, entretanto, diante desta situação, João se arrepende de ter se calado a respeito. Já a imagina gritando lá do alto indiferente ao fato de estar em meio a estranhos: “O que você está fazendo aí? Já não deveria estar em casa? Não estava no velório daquela sua tia? Que perfume é este? Quem torceu seu pé?” Se Maria estivesse domada pela química, João poderia lhe contar a verdade, ou quase toda: sobre Sofia, sobre as jóias, sobre Calvino, o Instituto e o Falcão Maltês. Mas tudo dera errado, e João perdera celular, um dente e quase todo dinheiro: não fosse a enfermeira ruiva arrumar uns trocados para o ônibus, João teria que voltar para casa a pé. Agora sem nada só poderia esperar a fúria de Maria em tapas e arranhões e a humilhação pública de ser espancado pela mulher. Talvez nem tão pública assim, pois não havia mais ninguém na plataforma para dividir este embaraço. Contudo, é bom se lembrar da presença inescapável das câmeras de segurança e da certeza que um filme destes estaria na rede antes que se contratasse o advogado, algum capaz de conter a sanha sensacionalista dos curiosos.
Mas a mente de João trabalha com hipóteses, com as alternativas em jogo. Não poderia voltar correndo, tentar pegar o próximo metrô. Como se sabe, neste horário, os trens a circular são poucos e já passa do horário de funcionamento deles. Tampouco poderia subir correndo as escadas. Maria pregaria a vista naquela corrida manquitola, como se João praticasse marcha olímpica. Ela seria bem capaz de voltar pelas escadas e muito facilmente o alcançaria, não só pela sua velocidade (Maria foi campeã de corrida na escola), mas também porque com quase toda probabilidade já não haveria mais ônibus com o qual fugir.
Ocorreu a João de se abaixar atrás da mureta que separa as duas escadas. Porém, se ele se dobrasse rápido demais, óbvio que Maria atentaria nele. Quem sabe, preocupada, supusesse a queda de um estranho, um qualquer que sentiu-se mal e ficaria ali jogado até o dia seguinte. Mas, se por outro lado, ele se escondesse lentamente, Maria também desconfiaria. Por certo, acreditaria ser um ladrão, alguém armando arapuca, tocaia para atacá-la tão logo chegasse ao fim da escada rolante. Ela poderia inclusive empregar o que aprendera no curso de jiu-jitsu e defesa pessoal, puxar-lhe os cabelos, fazendo-o revelar sua face e então exigir explicações, explicações sempre insuficientes.
João precisa se decidir logo, o tempo passa e os passageiros já devem estar embarcando no ônibus no ponto diante da estação. Ele ainda está incerto se ela o viu ou não, porém começa a ponderar porque Maria também parou do outro lado da escada rolante. Vai ver ficou tão furiosa que não consegue esboçar reação nenhuma, como os dentes trincados e travados do cão antes de mordida. João evita encarar Maria, isto seria difícil, ela está longe, mas deixa a imagem da mulher em seu campo de visão. A princípio, imagina ser uma bolsa. Mas depois observa que se trata de uma tipóia. Como ela teria machucado o braço? João pressupõe um acidente no treino de jiu-jitsu, mas hoje não há aula. Quando precisou mentir a respeito do velório da tia em Santos, Maria respondeu que ficaria em casa assistindo a um filme de John Woo. O que ela fazia ali, na estação, tão longe de casa? Pretendia passar a noite fora, certamente, pois o próximo trem seria o último daquela noite. Suspeitando de uma traição, João deseja/não deseja estar com sua arma: enfurecido atiraria dali mesmo. Ele sabe que acertaria, sempre teve boa mira. Ah, e se Maria tentasse escapar, fugir na hora do último trem, ele se jogaria diante dela, João bem mais forte e pesado, e ela veria a porta automática se fechar e a escapatória desaparecer túnel adentro. Durante aqueles instantes, João divaga sobre o que teria levado Maria a estar lá, na estação, naquele horário: começa a juntar os fatos e relembra da ligação durante a madrugada de um homem chamado Platão e daquele repentino interesse sobre ourivesaria e das anotações sobre o Templo do Sol. Estaria ela envolvida com a Organização ou seria um caso com o professor de jiu-jitsu? Deve ser a Organização, pois ela não sairia para encontrar o amante assim, toda desarrumada, usando o metrô. O mais lógico seria pegar um táxi. Ou esperar o homem passar em casa, afinal ela não esperava que João aparecesse por lá. A não ser que estivesse apaixonada. Ou encurralada.
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Relembraram uma cena do filme de Woo, as armas dos irmãos/inimigos apontadas contra a boca um do outro, no nariz o cheiro de outras pólvoras: como as serpentes no caduceu, como dois corpos no espaço em mútua atração e repulsão, na órbita dos desesperados, girando ao redor de si mesmos na ciranda em direção ao ralo do mundo.
(Escher.)