Kurt Vonnegut via Sergio Augusto
"Garanto a você que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a
ausência de enredo, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma
daquelas tramas à moda antiga seja contrabandeada para dentro da
história. Não defendo a trama como representação acurada da vida, mas
como forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava aulas de criação
literária, costumava recomendar aos estudantes que fizessem seus
personagens desejar alguma coisa imediatamente
– mesmo que apenas um copo d’água. Personagens paralisados pela
ausência de sentido da vida moderna ainda precisam beber água de vez em
quando. Um dos meus alunos escreveu um conto sobre uma freira que ficou
com um pedaço de fio dental preso entre os molares inferiores e não
conseguia se livrar dele o dia inteiro. Achei isso maravilhoso. A
história lidava com questões muito mais importantes do que fios dentais,
mas o que mantinha os leitores presos era a ansiedade de saber quando o
fio dental seria finalmente removido. Era impossível ler aquele conto
sem sentir um incômodo entre os dentes. (…) Se você exclui a trama, se
elimina o desejo de alguém por alguma coisa, você exclui o leitor, o que
é uma coisa muito feia de fazer."
Não sei se a última frase, com sua generalização implacável, estará
correta: há leitores de todo tipo e alguns deles devem sentir prazer com
histórias (vamos manter a palavra, à falta de outra) absolutamente
destituídas de conflito, desejo ou mesmo personagens, blocos de arte
conceitual em que tudo o que se passa na página ocorre num plano
meramente formal. Excluir essa possibilidade também seria um erro: se a
literatura for alguma coisa, será o reino da liberdade autoral absoluta.
O que acredito que Vonnegut quis dizer é que, ao eliminar o
personagem e seu desejo por algo que ele não tem – condições básicas
para se estabelecer com o leitor um pacto narrativo de suspense e, por
fim, (in)satisfação –, a literatura exclusivamente conceitual deixa ao
relento uma imensa maioria de leitores. Isso me parece inquestionável e
não vale apenas para o realismo: nada impede que, em vez de um copo
d’água, o personagem deseje com ardor e acabe conseguindo, sei lá,
cavalgar um unicórnio ou se transportar para dentro de um videogame.
Uma rápida consulta às listas dos livros mais vendidos, quase todos
feitos de trama pura ou quase isso, basta para comprovar o que foi dito
acima. O que complica a questão é que essa preferência popular tão
categórica pela contação de histórias leva muita gente – sobretudo
críticos, mas também escritores – a menosprezar o enredo, o entrecho, a
intriga, o mistério, a surpresa como ferramentas menores da literatura,
recursos identificados com o lado ingênuo ou menos sério da arte. Algo
que deve ser eliminado ou, no mínimo, não sendo merecedor de grande
atenção, resolvido rápida e porcamente a fim de deixar o terreno livre
para o que de fato importa – seja lá o que isso for. Não duvido que em
tal erro de julgamento resida parte da explicação para que as listas de
mais vendidos do início deste parágrafo estejam há anos tão
melancolicamente despovoadas de brasileiros.
A ideia de “contrabando” sugerida por Vonnegut me parece uma
estratégia artística mais inteligente. Aquela freira às voltas com seu
fio dental torturante pode ter vivido ao longo do conto, que não nos é
dado conhecer, todo tipo de conflito casca-grossa – teológico, sexual,
linguístico, cognitivo, o diabo –, mas o leitor se veria menos disposto a
acompanhá-la em tais profundezas se não estivesse preso à história pelo
fio prosaico que ela traz entre os dentes. Estamos diante de um
inequívoco MacGuffin.
Termo mais conhecido pela turma do cinema, MacGuffin é uma palavra
popularizada por Alfred Hitchcock para designar aquele elemento da
história que impulsiona a ação dos personagens e que, no fim das contas,
descobrimos não ter tanta importância assim, pois o verdadeiro foco da
narrativa era outro. O que vale para o cinema e a TV vale também para a
literatura – ou para qualquer forma de contar histórias. Não por acaso,
um MacGuffin clássico é a estatueta que dá título ao romance “O falcão
maltês”, de Dashiell Hammett, e também ao filme de John Huston nele
baseado (batizado de “Relíquia macabra” no Brasil). Descobrimos perto do
fim que a preciosidade em nome da qual tanto sangue foi derramado é
falsa, mas isso já não tem muita importância.
Uma boa frase de autoria duvidosa, popularizada por John Lennon na canção Beautiful boy,
sustenta que “vida é aquilo que acontece enquanto você está ocupado
fazendo outros planos”. Pois história – ou pelo menos um tipo bastante
interessante de história – é aquilo que acontece enquanto estamos
ocupados imaginando o que será feito do MacGuffin. Nesse meio tempo pode
acontecer nas páginas o que o autor quiser ou puder fazer acontecer,
inclusive a arte literária mais rigorosa e exigente. Com a vantagem de
que, nesse caso, o leitor vem junto.
quarta-feira, 29 de julho de 2015
sábado, 20 de junho de 2015
Escrever
Lugar-comum, Gregório Duvivier
"
"
Algumas palavras são casadas. A
palavra caudaloso, por exemplo, tem união estável com a palavra rio
-você dificilmente verá caudaloso andando por aí acompanhada de outra
pessoa. O mesmo vale para frondosa, que está sempre com a árvore.
Perdidamente, coitado, é um advérbio que só adverbia o adjetivo
apaixonado. Nada é ledo a não ser o engano, assim como nada é crasso a
não ser o erro. Ensejo é uma palavra que só serve para ser aproveitada.
Algumas palavras estão numa situação pior, como calculista, que vive em
constante ménage, sempre acompanhada de assassino, frio etc.
Algumas palavras dependem de outras, embora não sejam grudadas por um hífen -quando têm hífen elas não são casadas, são siamesas. Casamento acontece quando se está junto por algum mistério. Alguns dirão que é amor, outros dirão que é afinidade, carência, preguiça e outros sentimentos menos nobres (a palavra engano, por exemplo, só está com ledo por pena -sabe que ledo, essa palavra moribunda, não iria encontrar mais nada a essa altura do campeonato).
Esse é o problema do casamento entre as palavras, que por acaso é o mesmo do casamento entre pessoas. Tem sempre uma palavra que ama mais. A palavra árvore anda com várias palavras além de frondosa. O casamento é aberto, mas para um lado só. A palavra rio sai com várias outras palavras na calada da noite: grande, comprido, branco, vermelho -e caudaloso fica lá, sozinho, em casa, esperando o rio chegar, a comida esfriando no prato.
Um dia, caudaloso cansou de ser maltratado e resolveu sair com outras palavras. Esbarrou com o abraço que, por sua vez, estava farto de sair com grande, essa palavra tão gasta. O abraço caudaloso deu tão certo que ficaram perdidamente inseparáveis. Foi em Manuel de Barros. Talvez pra isso sirva a poesia, pra desfazer ledos enganos em prol de encontros mais frondosos.
"
VIA Abraço Caudaloso, na Folha.
Algumas palavras dependem de outras, embora não sejam grudadas por um hífen -quando têm hífen elas não são casadas, são siamesas. Casamento acontece quando se está junto por algum mistério. Alguns dirão que é amor, outros dirão que é afinidade, carência, preguiça e outros sentimentos menos nobres (a palavra engano, por exemplo, só está com ledo por pena -sabe que ledo, essa palavra moribunda, não iria encontrar mais nada a essa altura do campeonato).
Esse é o problema do casamento entre as palavras, que por acaso é o mesmo do casamento entre pessoas. Tem sempre uma palavra que ama mais. A palavra árvore anda com várias palavras além de frondosa. O casamento é aberto, mas para um lado só. A palavra rio sai com várias outras palavras na calada da noite: grande, comprido, branco, vermelho -e caudaloso fica lá, sozinho, em casa, esperando o rio chegar, a comida esfriando no prato.
Um dia, caudaloso cansou de ser maltratado e resolveu sair com outras palavras. Esbarrou com o abraço que, por sua vez, estava farto de sair com grande, essa palavra tão gasta. O abraço caudaloso deu tão certo que ficaram perdidamente inseparáveis. Foi em Manuel de Barros. Talvez pra isso sirva a poesia, pra desfazer ledos enganos em prol de encontros mais frondosos.
"
VIA Abraço Caudaloso, na Folha.
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domingo, 17 de maio de 2015
Escrever
Isto é café frio, gelado talvez, sei bem, mas foda-se: continua sendo bom.
É menos sobre Escrever e mais sobre viver de Escrever (ou de qualquer outra Arte).
Discurso de Neil Gaiman para os formandos da University of the Arts, na Filadelfia, Estados Unidos.Tradução é daqui.
17 de Maio de 2012
Eu nunca realmente esperei me encontrar dando conselhos para pessoas se graduando em um estabelecimento de ensino superior. Eu nunca me graduei em um desses estabelecimentos. E nunca nem comecei um. Eu escapei da escola assim que pude, quando a perspectiva de mais quatro anos de aprendizados forçados antes que eu pudesse me tornar o escritor que desejava ser era sufocante.
Eu saí para o mundo, eu escrevi, eu me tornei um escritor melhor na medida em que escrevia mais, e eu escrevi um pouco mais, e ninguém nunca parecia se importar que eu estava inventando na medida em que eu prosseguia, eles simplesmente liam o que eu escrevia e pagavam por isso, ou não, e frequentemente eles me encomendavam alguma outra coisa pra eles.
O que me deixou com um saudável respeito e admiração pela educação superior do quais meus amigos e familiares, que frequentaram universidades, se curaram há muito tempo atrás.
Olhando para trás, eu trilhei uma caminhada memorável. Não tenho certeza de que posso chamá-la de uma carreira, porque uma carreira implica que eu tivesse algum tipo de plano de carreira, e eu nunca tive. A coisa mais próxima que tive foi uma lista que fiz quando tinha 15 anos com tudo que eu queria fazer: escrever um romance para adultos, um livro infantil, uma revista em quadrinhos, um filme, gravar um audiobook, escrever um episódio de Dr. Who… e assim por diante. Eu não tive uma carreira. Eu simplesmente fui fazendo a próxima coisa da lista.
Então pensei em contar para vocês tudo que eu gostaria de saber de saída, e algumas coisas que, olhando para trás pra isso, suponho que eu sabia. E também em dar o melhor conselho que já recebi, o qual falhei completamente em seguir.
O primeiro de todos: Quando você começa em uma carreira nas artes você não tem ideia do que está fazendo.
Isso é ótimo. As pessoas que sabem o que estão fazendo conhecem as regras, e sabem o que é possível e o que é impossível. Vocês não. E vocês não devem. As regras sobre o que é possível e impossível nas artes foram feitas por pessoas que não tinham testado os limites do possível indo além deles. E vocês podem.
Se vocês não sabem que é impossível é mais fácil fazer. E porque ninguém fez antes, não inventaram regras para evitar que alguém faça de novo, ainda.
Em segundo, se você tem uma ideia do que você quer fazer, sobre o que você foi colocado aqui para fazer, então simplesmente vá e faça aquilo.
E isso é muito mais difícil do que parece e, algumas vezes, no fim, muito mais fácil do que você poderia imaginar.
Porque normalmente, há coisas que você precisa fazer antes de que você possa chegar aonde quer estar. Eu queria escrever quadrinhos e romances e histórias e filmes, então me tornei um jornalista, porque jornalistas têm permissão para fazer perguntas, e para simplesmente ir adiante e descobrir como o mundo funciona, e, além disso, para fazer essas coisas eu precisaria escrever e escrever bem, e eu estava sendo pago para aprender como escrever economicamente, claramente, às vezes em condições adversas, e em tempo.
Algumas vezes o caminho para fazer o que você espera fazer estará claramente delineado; e às vezes será quase impossível decidir se você estará ou não fazendo a coisa certa, porque você terá de balancear suas metas e esperanças, e alimentar-se, pagar as contas, encontrar trabalho, e se adequar ao que pode encontrar.
Uma coisa que funcionou para mim foi imaginar que onde eu gostaria de estar – um autor, principalmente de ficção, fazendo bons livros, fazendo bons quadrinhos e me mantendo através de minhas palavras – era uma montanha. Uma montanha distante. Minha meta.
E eu sabia que enquanto eu me mantivesse andando em direção à montanha eu estaria bem. E quando eu verdadeiramente não estava certo acerca do que fazer, eu podia parar, e pensar se aquilo estava me levando em direção à montanha ou me afastando dela. Eu disse não para trabalhos editoriais em revistas, trabalhos adequados que teriam pago um dinheiro respeitável porque eu sabia que, por mais atrativos que fossem, para mim eles estariam me deixando mais distante da montanha. E se essas ofertas tivessem aparecido mais cedo talvez as tivesse aceito, porque elas ainda me deixariam mais perto da montanha do que eu estava à época.
Eu aprendi a escrever escrevendo. Eu tendia a fazer qualquer coisa conquanto que parecesse uma aventura, e a parar de fazê-la quando parecia trabalho, o que significou que a vida não se parecia com trabalho.
Terceiro, quando você começa, você precisa lidar com os problemas do fracasso. Vocês precisam ser osso duro de roer, precisam aprender que nem todo projeto sobreviverá. Uma vida como freelancer, uma vida nas artes, é muitas vezes como colocar mensagens em garrafas, em uma ilha deserta, e esperar que alguém encontre uma de suas garrafas, e a abra, leia, e coloque algo em outra garrafa que fará seu caminho de volta até você: apreço, ou uma encomenda, dinheiro, ou amor. E vocês têm de aceitar que vocês poderão lançar uma centena de coisas para cada garrafa que aparecerá retornando.
Os problemas do fracasso são problemas de desencorajamento, de desespero, de ansiedade. Você deseja que tudo aconteça e você quer que as coisas aconteçam agora, e as coisas dão errado. Meu primeiro livro – uma peça de jornalismo que tinha feito pelo dinheiro, e que já tinha me comprado uma máquina de escrever eletrônica do adiantamento – deveria ter sido um bestseller. Deveria ter me pagado muito dinheiro. Se a editora não tivesse involuntariamente ido à bancarrota entre a primeira impressão se esgotar e a segunda sair, e antes que quaisquer direitos pudessem ser pagos, ele teria me dado muito dinheiro.
E eu dei de ombros, eu ainda tinha minha máquina de escrever eletrônica e dinheiro o bastante para pagar o aluguel por um par de meses, e decidi que eu faria o meu melhor para no futuro não escrever livros apenas pelo dinheiro. Se você não ganha o dinheiro, então você não tem nada. Se eu fizesse um trabalho do qual me orgulhasse, e não ganhasse a grana, ao menos eu teria o trabalho.
De vez em quando, eu esqueço essa regra, e sempre que o faço, o universo me bate com força e me relembra dela.
Eu não sei se isso é um problema para mais alguém além de mim, mas é verdade que nada que eu fiz na qual a única razão para fazê-lo fosse o dinheiro jamais valeu a pena, exceto como amarga experiência. Normalmente nunca dei o trabalho por encerrado ao receber o dinheiro, por outro lado. As coisas que fiz porque estava empolgado, e queria vê-las existirem na realidade, nunca me decepcionaram, e eu nunca me arrependi do tempo gasto com nenhuma delas.
Os problemas do fracasso são difíceis.
Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém lhes avisa sobre eles.
O primeiro problema de qualquer tipo de sucesso limitado é a convicção inabalável de que você está fugindo com algo, e de que a qualquer momento irão descobri-lo. É a Síndrome do Impostor, algo que minha esposa Amanda batizou de Polícia da Fraude.
Em meu caso, eu estava convencido de que haveria uma batida na porta, e um homem com uma prancheta (não sei por que ele carregava uma prancheta, em minha cabeça, mas ele carregava) estaria lá, para me dizer que estava tudo acabado, e eles me pegariam e agora eu teria de ir e conseguir um trabalho de verdade, algum que não consistisse de inventar coisas e escrevê-las, e ler livros que eu quisesse ler. E então eu partiria silenciosamente e pegaria o tipo de trabalho no qual você não tem de inventar mais coisas.
Os problemas do sucesso. Eles são reais, e com sorte vocês irão experienciá-los. O ponto em que você para de dizer sim pra tudo, porque agora as garrafas que você lança ao oceano estão todas voltando, e você precisa aprender a dizer não.
Eu observei meus colegas e amigos, e aqueles que eram mais velhos que eu e observei quão infelizes alguns deles se sentiam: eu os ouvi contar pra mim que eles não podiam encarar um mundo no qual eles não podiam mais fazer o que sempre quiseram fazer, porque agora eles tinham de ganhar uma certa quantidade de grana todo mês apenas para se manter onde estavam. Eles não podiam ir e fazer as coisas que importavam, e que realmente queriam fazer; e isso me pareceu uma tragédia tão grande quanto qualquer problema de fracasso.
E depois disso, o maior problema do sucesso é que o mundo conspira para que você pare de fazer o que você faz, porque você é famoso. Houve um dia em que olhei e me dei conta de que eu tinha me tornado alguém que profissionalmente respondia a e-mails, e escrevia como um hobby. Eu comecei a responder menos e-mails, e fiquei aliviado por perceber que estava escrevendo muito mais.
Em quarto, eu espero que vocês cometam erros. Se vocês estão cometendo erros, significa que vocês estão por aí fazendo algo. E os erros em si podem ser úteis. Uma vez escrevi Caroline errado, em uma carta, trocando o A e o O, e eu pensei, “Coraline parece um nome real…”
E lembrem-se que não importa a área em que estejam, se você é um músico ou um fotógrafo, um artista fino ou um cartunista, um escritor, um dançarino, um designer, o que quer que você faça, vocês têm algo que é único. Vocês têm a habilidade de fazer arte.
E para mim, e para muitas das pessoas que conheci, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas definitivo. Ele lhe leva através dos bons momentos e pelos outros.
A vida as vezes é dura. As coisas dão errado, na vida e no amor e nos negócios e nas amizades e na saúde e em todos os outros modos que a vida pode dar errado. E quando as coisas ficam difíceis, isso é o que vocês devem fazer.
Façam boa arte.
Eu estou falando sério. O marido fugiu com uma política(o)? Faça boa arte. Perna esmagada e depois devorada por uma jibóia mutante? Faça boa arte. Imposto de renda te rastreando? Faça boa arte. Gato explodiu? Faça boa arte. Alguém na internet pensa que o que você faz é estúpido ou mau ou já foi feito antes? Faça boa arte. Provavelmente as coisas se resolverão de algum modo, e eventualmente o tempo levará a dor mais aguda, mas isso não importa. Faça apenas o que você faz de melhor. Faça boa arte.
Faça-a nos dias bons também.
E, em quinto: Enquanto estiverem nisso, façam a sua arte. Façam as coisas que só vocês podem fazer.
O impulso inicial é copiar. E isso não é uma coisa ruim. A maioria de nós só descobre nossas próprias vozes depois de termos soado como um monte de outras pessoas. Mas uma coisa que você tem que ninguém mais tem é você. Sua voz, sua mente, sua estória, sua visão. Então escreva e desenhe e construa e toque e dance e viva como só você pode viver.
No momento em que você sentir que, possibilidade, você está andando na rua nu, expondo muito de seu coração e de sua mente e do que existe em seu interior, mostrando demais de si mesmo. Esse é o momento em que você pode estar começando a acertar.
As coisas que fiz que mais funcionaram foram as coisas das quais menos estava certo, as estórias as quais eu tinha certeza de que ou funcionariam, ou, mais provavelmente, seriam o tipo de fracasso embaraçoso que as pessoas se juntam para falar a respeito até o fim dos tempos. Elas sempre tiveram isso em comum: olhando para em retrospectiva para elas, as pessoas explicam porque foram sucessos inevitáveis. Enquanto as estava fazendo, eu não tinha ideia.
E ainda não tenho. E onde estaria a graça de fazer alguma coisa que você soubesse que iria funcionar?
E às vezes as coisas que fiz realmente não funcionaram. Há estórias minhas que nunca foram reimpressas. Algumas delas nunca sequer saíram da casa. Mas eu aprendi com elas tanto quando aprendi com as coisas que funcionaram.
Sexto. Eu passarei algum conhecimento secreto de freelancer. Conhecimento secreto é sempre bom. E é útil para qualquer um que alguma vez já planejou criar arte para outras pessoas, em entrar em um mundo de freelance de qualquer tipo. Eu aprendi isso com os quadrinhos, mas se aplica a outros campos também. E é isto:
As pessoas são contratadas porque, de algum modo, elas são contratadas. Em meu caso eu fiz algo que atualmente seria fácil de checar, e me colocaria em problemas, e quando eu comecei, naqueles dias pré-internet, parecia uma estratégia de carreira sensata: quando editores me perguntavam para quem eu já tinha trabalhado, eu mentia. Eu listei uma série de revistas que soavam razoáveis, e soei confiante, e consegui os empregos. Então transformei em uma questão de honra conseguir escrever algo para cada uma das revistas que eu listei para conseguir aquele primeiro emprego, de modo que eu não menti de fato, só fui cronologicamente desafiado… Você começa a trabalhar por qualquer maneira que comece a trabalhar.
As pessoas se mantêm trabalhando, em um mundo de freelances, e mais e mais do mundo de hoje é freelance, porque seu trabalho é bom, e porque são fáceis de conviver, e porque elas entregam o trabalho em tempo. E você nem precisa de todos os três. Dois em três está bem. As pessoas irão tolerar quão desagradável você é se seu trabalho for bom e você o entregar no prazo. Elas perdoarão o atraso do trabalho se ele for bom, e elas gostarem de você. E você não precisa ser tão bom quanto os outros se você é pontual e é sempre um prazer ouvi-lo(a).
Quando concordei em fazer este discurso, eu comecei tentando pensar em qual tinha sido o melhor conselho que já tinha recebido ao longo dos anos.
E ele veio do Stephen King, há vinte anos atrás, no auge do sucesso de Sandman. Eu estava escrevendo um quadrinho que as pessoas amavam e estavam levando a sério. King gostara de Sandman e de meu romance com Terry Pratchett, Belas Maldições (Good Omens), e ele viu a loucura, as longas filas de autógrafos, tudo aquilo, e seu conselho foi esse:
“Isso é realmente ótimo. Você deveria apreciar isso.”
E eu não aproveitei. O melhor conselho que já recebi que ignorei. Ao invés disso, eu me preocupei com aquilo. Eu me preocupei com o próximo prazo, a próxima ideia, a próxima estória. Não houve um momento nos próximos quatorze ou quinze anos em que não estivesse escrevendo algo em minha cabeça, ou imaginando a respeito. E eu não parei e olhei em redor e pensei, isso é realmente divertido. Eu queria ter aproveitado mais. Tem sido uma caminhada incrível. Mas houve partes da trilha que eu perdi, porque estava muito preocupado em as coisas darem errado, sobre o que viria depois, para apreciar a parte em que estava.
Essa foi a lição mais difícil pra mim, eu acho: relaxar e curtir a caminhada, porque a jornada o leva a alguns lugares memoráveis e inesperados.
E aqui, nesta plataforma, hoje, é um destes lugares. (E eu estou curtindo isso imensamente.)
Para todos os graduandos de hoje: eu desejo a vocês sorte. Sorte é útil. Frequentemente vocês descobrirão que quanto mais duro vocês trabalharem, e mais sabiamente, mais sortudos vocês serão. Mas existe sorte, e ela ajuda.
Nós estamos em um mundo em transição neste momento, se vocês estão em qualquer campo artístico, porque a natureza da distribuição está mudando, os modelos pelos quais os criadores entregavam seu trabalho ao mundo, e conseguiam manter um teto sobre suas cabeças e comprar alguns sanduíches enquanto faziam isso, estão todos mudando. Eu falei com pessoas do topo da cadeia alimentar em publicações, vendas de livros, em todas essas áreas, e ninguém sabe com o que a paisagem se parecerá daqui a dois anos, que dirá daqui a uma década. Os canais de distribuição que as pessoas construíram ao longo do último século ou mais estão contínua mudança, para os impressos, para artistas visuais, para músicos, para pessoas criativas de todos os tipos.
O que é, por um lado, intimidante e, por outro, imensamente libertador. As regras, as suposições, os agora nós devemos fazer de como você consegue expor seu trabalho, e o que você faz a seguir, estão ruindo. Os porteiros estão deixando seus portões. Vocês podem ser tão criativos quanto precisarem para conseguir visibilidade para seus trabalhos. YouTube e a web (e o que quer que venha depois do YouTube e da web) podem dar a vocês mais pessoas de audiência do que a televisão jamais deu. As velhas regras estão desmoronando e ninguém sabe quais são as novas regras.
Então inventem suas próprias regras.
Alguém recentemente me perguntou como fazer alguma coisa que ela achava que seria difícil, em seu caso, gravar um audiobook, e eu sugeri que ela fingisse que ela era alguém que poderia fazê-lo. Não fingir fazê-lo, mas fingir que era alguém que podia fazer. Ela colocou uma nota para este efeito na parede do estúdio, e disse que isso ajudou.
Então sejam sábios, porque o mundo necessita de mais sabedoria, e se vocês não puderem ser sábios, finjam ser alguém que é sábio, e então apenas se comportem como eles se comportariam.
E agora vão, e cometam erros interessantes, cometam erros maravilhosos, façam erros gloriosos e fantásticos. Quebrem regras. Façam do mundo um lugar mais interessante por vocês estarem aqui.
Façam boa arte.
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quarta-feira, 1 de abril de 2015
Escrever
(Outro bom site cheio de dicas e inspirações, o Brain Pickings. Nesse link, Samuel R.Delany definiu algumas diferenças entre Boa Escrita e a Escrita Talentosa)
Though they have things in common, good writing and talented writing are not the same.
[…]If you start with a confused, unclear, and badly written story, and apply the rules of good writing to it, you can probably turn it into a simple, logical, clearly written story. It will still not be a good one. The major fault of eighty-five to ninety-five percent of all fiction is that it is banal and dull.
Now old stories can always be told with new language. You can even add new characters to them; you can use them to dramatize new ideas. But eventually even the new language, characters, and ideas lose their ability to invigorate.
Either in content or in style, in subject matter or in rhetorical approach, fiction that is too much like other fiction is bad by definition. However paradoxical it sounds, good writing as a set of strictures (that is, when the writing is good and nothing more) produces most bad fiction. On one level or another, the realization of this is finally what turns most writers away from writing.
Talented writing is, however, something else. You need talent to write fiction.
Good writing is clear. Talented writing is energetic. Good writing avoids errors. Talented writing makes things happen in the reader’s mind — vividly, forcefully — that good writing, which stops with clarity and logic, doesn’t.
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segunda-feira, 16 de março de 2015
Escrever
Dica de Antonio Prata
"Quando quero criar um personagem estranho, descrevo um dos meus amigos. Quando quero criar um personagem mais estranho, recorro ao Guia de medicina ambulatorial e hospitalar da Unifesp/ Escola Paulista de Medicina -- Psiquiatria; um instrumento que todo escritor deveria ter. Síndromes, transtornos, psicoses, enfim, todos aqueles comportamentos que Nelson Rodrigues chamaria de “taras” ou “manias” aparecem ali, classificados e explicados pelos doutores."
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Escrever
Dica de Mário Prata:
"Como não poderia deixar de fazer, pedi dicas para escrever um futuro romance. “Quer escrever um romance? Leia livros policiais. Romance é ação e é nos bons romances policiais que está a ação. Vou passar pra você uma lista de bons livros do gênero para você poder ler e aprender com os mestres”, respondeu em tom professoral. Depois, desabafou: “Vivo insistindo para o meu filho ler os policiais, mas ele só quer saber desses intelectuais. Puxa vida! Lendo intelectuais, ele pode até seguir uma carreira acadêmica ou se tornar um cronista cada vez melhor, mas tem que ler os policiais. Eu digo isso a ele, mas o Antonio não me ouve. É incrível: o Antonio não me ouve.” Como se estivesse dando uma bronca no filho por nosso intermédio arrematou: “O único intelectual que se tornou um bom romancista é o Umberto Eco. E vocês sabem porque? Ele é fanático em literatura policial.” Com isso, deu o caso por encerrado."
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Escrever
Julio Cortázar.
Eu tenho esse texto no Último Round (Civilização Brasileira). Mas - por desencargo - decidi espiar no Google, verificar se alguém já não o teria postado antes. E não é que achei? A versão dele é um pouco diferente (Outra editora, outro tradutor, outra edição, sem epígrafe...), mas tá valendo. Pois é, dá-lhe preguiça. Mas esse blog é pretende ser mais pasta "pública" de recortes do que algo mais sério. Veio daqui: Oficina de Textos e Contos
Do conto breve e seus arredores
Certa
vez Horacio Quiroga tentou um decálogo
do perfeito contista, que desde o título vale já como uma piscada
de olho para o leitor. Se nove dos preceitos são consideravelmente
prescindíveis, o último parece-me de uma lucidez impecável: “Conta como se a narrativa não tivesse
interesse senão para o pequeno ambiente de tuas personagens, das quais pudeste
ter sido uma. Não há outro modo para obter a vida no conto”.
A
noção de pequeno ambiente dá um sentido mais profundo ao conselho, ao definir a
forma fechada do conto, o que já noutra ocasião chamei de esfericidade; mas
a essa noção se soma outra igualmente significativa, a de que o narrador
poderia ter sido uma das personagens, vale dizer que a situação narrativa em si
deve nascer e dar-se dentro da esfera, trabalhando do interior para o exterior,
sem que os limites da narrativa se vejam traçados como quem modela uma esfera
de argila. Dito de outro modo, o sentimento da esfera deve preexistir de alguma
maneira ao ato de escrever o conto, como se o narrador, submetido pela forma
que assume, se movesse implicitamente nela e a levasse à sua extrema tensão,
o que faz precisamente a perfeição da forma esférica.
Estou
falando do conto contemporâneo, digamos o que nasce com Edgar Allan Poe, e que
se propõe como máquina infalível destinada a cumprir sua missão narrativa com a
máxima economia de meios; precisamente, a diferença entre o conto e o que os
franceses chamam nouvelle e os anglo-saxões long short story se
baseia na implacável corrida contra o relógio que é um conto plenamente
realizado: basta pensar em The Cask of Amontillado, Bliss, Las ruínas
circulares e The Killers (Poe, Katherine Mansfield, Jorge Luís
Borges e Ernest Hemingway). Isto não quer dizer que contos mais extensos não
possam ser igualmente perfeitos, mas me parece óbvio que as narrações
arquetípicas dos últimos cem anos nasceram de uma impiedosa eliminação de todos
os elementos privativos da nouvelle e do romance, os exórdios, os
circunlóquios, desenvolvimentos e demais recursos narrativos; se um conto longo
de Henry James ou D. H. Lawrence pode ser considerado tão genial como aqueles,
será preciso convir que estes autores trabalharam com uma abertura temática e
lingüística que de algum modo lhes facilitava o trabalho, enquanto que o sempre
assombroso dos contos contra o relógio está no fato de potenciarem
vertiginosamente um mínimo de elementos, provando que certas situações ou
terrenos narrativos privilegiados podem ser traduzidos numa narrativa de
projeções tão vastas como a mais elaborada das nouvelles.
O que segue se baseia parcialmente em experiências
pessoais cuja descrição mostrará talvez, digamos a partir do exterior da
esfera, algumas das constantes que gravitam num conto deste tipo. Volto ao
irmão Quiroga para lembrar que diz: “Conta como se a narrativa não tivesse
interesse senão para o pequeno ambiente de tuas personagens, das quais
pudeste ser uma. A noção de ser uma das personagens se traduz em geral
na narrativa em primeira pessoa, que nos situa de roldão num plano interno. Faz
muitos anos, em Buenos Aires, Ana María Barrenechea me censurou amistosamente
um excesso no uso da primeira pessoa, creio que com relação às narrativas de Las
Armas Secretas, embora talvez se tratasse das do Final del juego. Quando
lhe fiz ver que havia várias em terceira pessoa, insistiu que não era assim e
tive de prová-lo com o livro na mão. Chegamos à hipótese de que talvez a
terceira atuasse como uma primeira pessoa disfarçada, e que por isso a memória
tendia a homogeneizar monotonamente a série de narrativas do livro.
Nesse
momento, ou mais tarde, encontrei uma espécie de explicação pela via contrária,
sabendo que quando escrevo um conto busco instintivamente que ele seja de algum
modo alheio a mim enquanto demiurgo, que se ponha a viver com uma vida
independente, e que o leitor tenha ou possa ter a sensação de que de certo modo
está lendo algo que nasceu por si mesmo, em si mesmo e até de si mesmo, em todo
caso com a mediação mas jamais com a presença manifesta do demiurgo. Lembrei
que sempre me irritaram as narrativas onde as personagens têm de ficar como que
à margem, enquanto o narrador explica por sua conta (embora essa conta seja a
mera explicação e não suponha interferência demiúrgica) detalhes ou passagens
de uma situação a outra. O indício de um grande conto está para mim no que
poderíamos chamar a sua autarquia, o fato de que a narrativa se tenha
desprendido do autor como uma bolha de sabão do pito de gesso. Embora pareça
paradoxal, a narração em primeira pessoa constitui a mais fácil e talvez melhor
solução do problema, porque narração e ação são aí uma coisa só.
Inclusiva quando se fala de terceiros, quem o faz é parte da ação, está na
borbulha e não no pito. Talvez por isso, nas minhas narrativas em terceira
pessoa, procurei quase sempre não sair de uma narração stricto sensu, sem
essas tomadas de distância que equivalem a um juízo sob, e o que está
acontecendo. Parece-me uma vaidade querer intervir num conto com algo mais que
com o conto em si.
Isto
leva necessariamente à questão da técnica narrativa, entendendo por isto o
especial enlace em que se situam o narrador e o narrado. Pessoalmente sempre
considerei esse enlace como uma polarização, isto é, se existe a óbvia ponte de
uma linguagem indo e de uma vontade de expressão à própria expressão, ao mesmo
tempo essa ponte me separa, como escritor, do conto como coisa escrita, a ponto
de a narrativa ficar sempre, após a última palavra, na margem oposta. Um verso
admirável de Pablo Neruda: Mis criaturas nacen de um largo rechazo [Minhas
criaturas nascem de um longo rechaço] parece-me a melhor definição de um
processo em que o escrever é de algum modo exorcizar, repelir criaturas
invasoras, projetando-as a uma condição que paradoxalmente lhes dá existência
universal ao mesmo tempo que as situa no outro extremo da ponte, onde já não
está o narrador que soltou a bolha do seu pito de gesso. Talvez seja um exagero
afirmar que todo conto breve plenamente realizado, e em especial os contos
fantásticos, são produtos neuróticos, pesadelos ou alucinações neutralizadas
mediante a objetivação e a transladação a um meio exterior ao terreno
neurótico; de toda forma, em qualquer conto breve memorável se percebe essa
polarização, como se o autor tivesse querido desprender-se o quanto antes
possível e da maneira mais absoluta da sua criatura, exorcizando-a do único
modo que lhe é dado fazê-lo: escrevendo-a.
Este
traço comum não seria conseguido sem as condições e a atmosfera que acompanha o
exorcismo. Pretender livrar-se de criaturas obsedantes à base de mera técnica
narrativa pode talvez dar um conto, mas faltando a polarização essencial, a
rejeição catártica, o resultado literário será precisamente isso, literário:
faltará ao conto a atmosfera que nenhuma análise estilística conseguiria
explicar, a aura que pervive na narrativa e possuirá o leitor como havia
possuído, no outro extremo da ponte, o autor. Um contista eficaz pode escrever
narrativas literariamente válidas, mas se alguma vez tiver passado pela
experiência de se livrar de um conto como quem tira de cima de si um bicho,
saberá a diferença que há entre possessão e cozinha literária, e por sua vez um
bom leitor de contos distinguirá infalivelmente o que vem de um território
indefinível e ominoso, e o produto de um mero métier. Talvez o traço
diferencial mais marcante — já o assinalei em outro lugar — seja a tensão
interna da trama narrativa. De um modo que nenhuma técnica narrativa poderia
ensinar ou prover, o grande conto breve condensa a obsessão do bicho, é uma
presença alucinante que se instala desde as primeiras frases para fascinar o
leitor, fazê-lo perder contato com a desbotada realidade que o rodeia,
arrasá-lo numa submersão mais intensa e avassaladora. De um conto assim se sai
como de um ato de amor, esgotado e fora do mundo circundante, ao qual se volta
pouco a pouco com um olhar de surpresa, de lento reconhecimento, muitas vezes
de alívio e tantas outras de resignação. O homem que escreveu esse conto passou
por uma experiência ainda mais extenuante, porque de sua capacidade de
transvasar a obsessão dependia o regresso a condições mais toleráveis; e a
tensão do conto nasceu dessa eliminação fulgurante de idéias intermédias, de
etapas preparatórias, de toda a retórica literária deliberada, uma vez que
estava em jogo uma operação de algum modo fatal que não tolerava perda de tempo;
estava ali, e só um tapa podia arrancá-la do pescoço ou da cara. Em todo caso
assim me tocou escrever muitos de meus contos; inclusive em alguns,
relativamente longos, como Las armas secretas, a angústia onipresente ao
longo de um dia todo me obrigou a trabalhar obstinadamente até terminar a
narrativa e só então, sem cuidar de relê-lo, descer à rua e caminhar por mim
mesmo, sem ser já Pierre, sem ser já Michèle.
Isto
permite assegurar que certa gama de contos nasce de um estado de transe,
anormal para os cânones da normalidade corrente, e que o autor os escreve
enquanto está no que os franceses chamam um état seconde. Que Poe
tenha realizado suas melhores narrativas nesse estado — paradoxalmente reserva
a frieza racional para a poesia, pelo menos na intenção — prova-o aquém de toda
evidência testemunhal o efeito traumático, contagioso e para alguns diabólico
de O Coração delator ou de Berenice. Não faltará quem julgue que
exagero esta noção de um estado ex-orbitado como o único terreno onde possa
nascer um grande conto breve; farei ver que me refiro a narrativas onde o
próprio tema contém a “anormalidade”, como os citados de Poe, e que me baseio
em minha própria experiência toda vez que me vi obrigado a escrever um conto
para evitar algo muito pior. Como descrever a atmosfera que antecede e envolve
o ato de escrevê-lo? Se Poe tivesse tido ocasião de falar disso, estas páginas
não seriam tentadas, mas ele calou esse círculo do seu inferno e se limitou a
convertê-lo em O gato preto ou em Ligéia. Não sei de outros
testemunhos que possam ajudar a compreender o processo desencadeador e
condicionador de um conto breve digno de lembrança; apelo então para a minha
própria situação de contista e vejo um homem relativamente feliz e cotidiano,
envolto nas mesmas insignificâncias e dentistas de todo habitante de cidade
grande, que lê o jornal e se enamora e vai ao teatro e que de repente,
instantaneamente, numa viagem de metrô, num café, num sonho, no escritório
enquanto revisa uma tradução duvidosa acerca do analfabetismo na Tanzânia,
deixa de ser ele-e-sua-circunstância e sem razão alguma, sem aviso
prévio, sem a aura dos epilépticos, sem a crispação que precede as grandes
enxaquecas, sem nada que lhe dê tempo para apertar os dentes e respirar fundo, é
um conto, uma massa informe sem palavras nem rostos, nem princípio nem fim,
mas já um conto, algo que somente pode ser um conto e, além disso, em seguida,
imediatamente, Tanzânia pode ir para o diabo porque este homem porá uma folha
de papel na máquina e começará a escrever, embora seus chefes e as Nações
Unidas em cheio lhe caiam nos ouvidos, embora a sua mulher chame porque a sopa
está esfriando, embora ocorram coisas tremendas no mundo e seja preciso escutar
as estações de rádio ou tomar banho ou telefonar para os amigos. Lembro-me de
uma citação curiosa, creio que de Roger Fry; um menino precocemente dotado para
o desenho explicava seu método de composição dizendo: First I think then I
draw a line round my think (sic) [primeiro eu penso depois eu
desenho uma linha em volta do meu penso (sic)]. No caso destes contos
sucede exatamente o contrário: a linha verbal que os desenhará começa sem
nenhum think prévio, há como que um enorme coágulo, um bloco total que
já é o conto, isso é claríssimo embora nada possa parecer mais obscuro, e
precisamente nisso reside a espécie de analogia onírica de signo inverso que há
na composição de tais contos, visto que todos nós sonhamos coisas
meridianamente claras que, uma vez despertos, eram um coágulo informe, uma
massa sem sentido. Sonhamos despertos ao escrever um conto breve? Os limites
entre o sonho e a vigília já sabemos: basta perguntar ao filósofo chinês ou à
borboleta[1]. De qualquer maneira, se a analogia é
evidente, a relação é de signo inverso pelo menos no meu caso, visto que parto
do bloco informe e escrevo algo que só então se converte num conto coerente e
válido per se. A memória, traumatizada sem dúvida por uma experiência
vertiginosa, guarda em detalhes as sensações desses momentos, escrever um conto
assim é simultaneamente terrível e maravilhoso, há um desespero exaltante, uma
exaltação desesperada; é agora ou nunca, e o temor de que possa ser nunca
exacerba o agora, torna-o máquina de escrever correndo a todo o teclado,
esquecimento da circunstância, abolição do circundante. E então a massa negra
se aclara à medida em que se avança, incrivelmente as coisas são de uma extrema
facilidade, como se o conto já estivesse escrito com uma tinta simpática e a
gente passasse por cima o pincelzinho que o desperta. Escrever um conto assim
não dá nenhum trabalho, absolutamente nenhum; tudo ocorreu antes e esse antes,
que aconteceu num plano onde “a sinfonia se agita na profundeza” para dizê-lo
com Rimbaud, é o que provocou a obsessão, o coágulo abominável que era preciso
arrancar em tiras de palavras. E pó isso, porque tudo está decidido numa região
que diuturnamente me é alheia, nem sequer o remate do conto apresenta
problemas, sei que posso escrever sem me deter, vendo apresentar-se e
suceder-se os episódios, e que o desenlace está tão incluído no coágolo inicial
como o ponto de partida. Lembro-me da manhã que me caiu em cima Una flor amarilla
: o bloco amorfo era a noção do homem que encontra um garoto que se parece
com ele e tem a deslumbradora intuição de que somos imortais. Escrevi as
primeiras cenas sem a menor vacilação, mas não sabia o que ia ocorrer, ignorava
o desenlace da história. Se nesse momento alguém me tivesse interrompido para
me dizer: “No final o protagonista vai envenenar Luc”, mas isso chegou como
todo o anterior, como a meada que se desnovela à medida que puxamos; a verdade
é que em meus contos não há o menor mérito literário, o menor esforço.
Se alguns se salvam do esquecimento é porque fui capaz de receber e transmitir
sem demasiadas perdas essas latências de uma psique profunda, e o resto é uma
certa veteranice para não falsear o mistério, conservá-lo o mais perto possível
da sua fonte, com seu tremor original, seu balbucio arquetípico.
O que
precede terá posto o leitor na pista: não há diferença genética entre este tipo
de contos e a poesia como a entendemos a partir de Baudelaire. Mas se o ato
poético me parece uma espécie de magia de segundo grau, tentativa de posse
antológica e não já física como na magia propriamente dita, o conto não tem
intenções essenciais, não indaga nem transmite um conhecimento ou uma
“mensagem”. A gênese do conto e do poema é, contudo, a mesma, nasce de um
repentino estranhamento de um deslocar-se que altera o regime “normal”
da consciência; num tempo em que as etiquetas e os gêneros cedem a uma
estrepitosa bancarrota, não é inútil insistir nessa afinidade que muitos
acharão fantasiosa. Minha experiência me diz que, de algum modo, um conto breve
como os que procurei caracterizar não tem estrutura de prosa. Cada
vez que me tocou revisar a tradução de uma de minhas narrativas (ou de tentar a
de outros autores, como alguma vez com Poe) senti até que ponto a eficácia e o sentido
do conto dependiam desses valores que dão um caráter específico ao poema e
também ao jazz: a tensão;o ritmo; a pulsação interna; o imprevisto dentro
de parâmetros ptré-vistos… essa liberdade fatal que
não admite alteração sem uma perda irreparável. Os contos dessa espécie
incorporam-se como cicatrizes indeléveis em todo leitor que os mereça: são
criaturas vivas, organismos completos, ciclos fechados, e respiram. Eles
respiram, não o narrador, à semelhança dos poemas perduráveis e à diferença
de toda prosa encaminhada para transmitir a respiração do narrador, para
comunicá-la à maneira de um telefone de palavras. E se perguntarem: Mas então,
não há comunicação entre o poeta (contista) e o leitor?, a resposta será óbvia:
A comunicação se opera a partir do poema ou do contista, não por
meio deles. E essa comunicação é a que tenta o prosador, de telefone a
telefone; o poeta e o narrador urdem criaturas autônomas, objetos de conduta
imprevisível, e suas conseqüências ocasionais nos leitores não se diferenciam
essencialmente das que têm para o autor, o primeiro a se surpreender com a sua
criação, leitor sobressaltado de si mesmo.
Breve
coda sobre os contos fantásticos. Primeira observação: o fantástico como
nostalgia. Toda suspension of disbelief [suspensão da incredulidade]
atua como uma trégua no seco, implacável assédio que o determinismo faz ao
homem. Nessa trégua, a nostalgia introduz uma variante na afirmação de Ortega:
há homens que em algum momento cessam de ser eles e sua circunstância, há uma
hora em que desejamos ser nós mesmos e o inesperado, nós mesmos e o momento em
que a porta que antes e depois dá para o saguão se abre lentamente para nos
deixar ver o prado onde relincha o unicórnio.
Segunda
observação: o fantástico exige um desenvolvimento temporal ordinário. Sua
irrupção altera instantaneamente o presente, mas a porta que dá para o saguão
foi e será a mesma no passado e no futuro. Só a alteração momentânea dentro da
regularidade delata o fantástico, mas é necessário que o excepcional passe a
ser também a regra sem deslocar as estruturas ordinárias entre as quais se
inseriu. Descobrir numa nuvem o perfil de Beethoven seria inquietante se
durasse dez segundos antes de se desfiar e tornar-se fragata ou pomba; o caráter
fantástico só se afirmaria no caso de ali continuar o perfil de Beethoven
enquanto o resto das nuvens se conduzisse com sua desintencional desordem
sempiterna. Na má literatura fantástica, os perfis sobrenaturais costumam ser
introduzidos como cunhas instantâneas e efêmeras na sólida massa do habitual;
assim, uma senhora que foi premiada com o ódio minucioso do leitor é
meritoriamente estrangulada no último minuto graças à mão fantasmal que entra
pela chaminé e se vai pela janela sem maiores rodeios, além do que nesses casos
o autor se vê obrigado a prover uma “explicação” à base de antepassados ou
maléficos malaios. Acrescento que a pior literatura deste gênero é, contudo, a
que opta pelo procedimento inverso, isto é, o deslocamento do tempo ordinário por
uma espécie de full-time do fantástico, invadindo a quase totalidade do
cenário com grande espalhafato de espetáculo sobrenatural, como no batido
modelo da casa mal-assombrada onde tudo ressumbra manifestações insólitas,
desde que o protagonista faz soar a aldrava das primeiras frases até a janela
do sótão onde culmina espasmodicamente a narrativa. Nos dois extremos —
insuficiente instalação num ambiente comum, e rejeição quase total deste último
— peca-se por impermeabilidade, trabalha-se com materiais heterogêneos
momentaneamente vinculados, mas nos quais não há osmose, articulação
convincente. O bom leitor sente que nada têm que fazer aí essa mão
estranguladora ou esse cavalheiro que em consequência de uma aposta se instala
para passar a noite numa tétrica morada. Este tipo de contos que infesta as
antologias do gênero lembra a receita de Edward Lear para fabricar um pastel
cujo glorioso nome esqueci: pega-se um porco, ata-se o bicho a uma estaca e
bate-se nele violentamente, enquanto em outra parte se prepara com diversos
ingredientes a massa cujo cozimento só se interrompe para continuar espancando
o porco. Se ao cabo de três dias não se tiver conseguido que a massa e o porco
formem um todo homogêneo, pode-se considerar que o pastel é um fracasso, em virtude
do que se soltará o porco e se atirará a massa ao lixo. É precisamente isso que
fazemos com os contos em que não há osmose, onde o fantástico e o habitual se
justapõem sem que nasça o pastel que esperávamos comer estremecidamente.
( CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio.
São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 227-237)
[1] Referência à anedota de Chuang Tzu, filósofo
chinês do séc. III a. C., incluída por Jorge Luís Borges e Adolfo Bioy Casares
em sua Antologia da literatura fantástica. Buenos Aires: Sudamericana, 1940.
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