quinta-feira, 8 de abril de 2010

Aniversata



Foi um pequeno encontro de fósseis reminiscentes e outros não, estes tidos como normais. E neste pastoril compareceram: caprinos, dragões, bebês, doutores, soldadores, historiadores (todos com suas parelhas), um vampiro e um legado de outros bichos mais. Para que se desse tudo em perfeita orla, uma especialista em dependentes cármicos esteve lá, Fredo também, ora arrancando as penas, ora colocando-as no lugar. No serviço de bar um ator dividia tarefas com um caçador; serviam drinks afrodisíacos temperados a desejo e moral. E enquanto, o bebê envelhecia um jogo de estratégia, que consistia em capturar peças isoladas (blots, ou seria brots), iniciou-se. No quadrante exterior os produtores de fumaça caçavam razões, entendimentos químicos e pescoços, assim como outras partes dos corpos. Sobraram cachos de cabelos pelo chão. No quadrante interior, o pintor desenhava no violão música favorecendo as relações. A dança que se fazia, era a dança dos amantes sem distinção de espécies, raças e ideais. Festejou-se, profano e sagrado, fantástico e real, festejou-se a vida, cruzada em um traço longínquo,ancestral.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nº02: paranela

sábado, 27 de março de 2010

Nº01: Negação do nada

Acho que vou carpintar a ausência do fato. Sim, a ausência, ou será que você não percebeu o silêncio distraído? A cadeira sem ninguém? Vou entalhá-lo, com um pedaço de aço afiado pelo meu tédio. Minha mãe sempre falou para que eu comesse feijão, ajudaria na gastrite restrita aos dias chatos, mas feijão no verão é como esse metrô lotado, cheio de joelhos suados e sem portas de saída. Eu prefiro a carpintaria, forço o amorfo a ser, deformo o ser com minhas dentadas. Quase um deus, ou uma criança com massinha de modelar. São esse cotovelos, essas bolsas falsificadas e alarmes de relógio que fizeram o fato não vir, só seus primos tortos, aquele irmão que gosta de parecer com ele, até seu cão, mas não ele; o fato quando chega a gente sabe. Vai ver ele morreu. Eu odeio o metrô, não por sua rapidez anunciada, sua limpeza formalizada ou o vão entre o trem e meu dia ruim, mas por lembrar a quantidade de pessoas que moram nessa cidade comigo, uma infinidade de fossas nasais que ignoram os fios de cabelos, mais de 100! caídos todos os dias carregando seus de-eni-ás que não valem a perícia técnica. Procuro, cartazes, tevê, chiados de trios-elétricos-humanos, mas nenhum fato e eu assim... Pego o pedaço brilhante, vejo sua forma lisa de rasgar madeira, riscar vidro, olho ao redor, ousado e afiado, nos olhos agora, não nos pescoços. Nos olhos estão a verdade carregada pelas veinhas, pelas remelinhas e encontro, descendo a escada, um tronco de nuvem entre os corrimãos, uma menina com cara de faça, cheia de cantos arredondados, uma seta que se move para o centro de sua útero e se raspa em jeans. Se ela me viu, não sei, se isso é o fato, agora não importa, mas o meu calendário ganha um dia marcado com “x”.

quarta-feira, 3 de março de 2010

aranha, três espécies de.






a)

Cada vez que se arranca uma pata de azaranha-do-araguaia (Argyroneta araguaiensis), crescem mais duas no lugar. De tanto os pequenos peixes se fartarem, nasce então um ouriço-de-água-doce (Echinometra araguaiensis).

b)

As teias da azaranha-da-serra (Latrodectus terribilis familiaris) podem cobrir a distância de vários metros entre árvores e resistem bem a estação das chuvas e aos furacões, mas não às brisas. Os biólogos já registraram todo tipo de objeto encontrado em suas teias: aviões de papel, bexigas, latas de cerveja e pequenos troquilídeos. Os colibris capturados serão parte do incomum processo de reprodução desta espécie de artrópode: incomum não pelo fato dos machos cantarem para atrair as fêmeas; tampouco pelas fêmeas devorarem os machos tão logo se conclua o acasalamento; nem pela inserção dos ovos nos cadáveres dos beija-flores; também não se deve pela mãe azaranha canibalizar a própria ninhada tão logo esta ecloda dentro da carcaça de ossos miúdos. O estranho é que, devorada a última cria, a azaranha mãe usa as quelíceras contra o próprio abdômen e devora seus próprios órgãos, fiandeiras, patas, os olhos e resseca-se acompanhada de suas vítimas em sua antiga teia.

c)

A azaranha doméstica (Loxosceles nostalgicus) é relativamente comum, armando seus ninhos atrás de porta-retratos, rolos de filmes preto e branco, álbuns de fotografia ou agendas telefônicas. Inúmeros casos fatais de picadas acabam registrados como suicídios, especialmente por ocorrerem na época de Natal, durante os aguaceiros de final de tarde, pois os relâmpagos e o som molhado da passagem de carros de família no asfalto estimulam os solitários a percorrerem o fundo das gavetas e guarda-roupas em busca de tempos menos silenciosos.













(fotografia do ano de 1932, por Dora Maar: "Les années vous guettent (Nusch Eluard)". Dora Maar foi amante de Picasso, e salvo engano sua história está presente no livro "Lendo Imagens", de Alberto Manguel, da Cia das Letras)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Carmen Miranda


Nosso pai foi Papai Noel.

Ele usava mangas compridas e ternos e coletes para esconder as tatuagens feitas na prisão. Foi assim que conseguiu aquele emprego. Nosso pai oferecia balas e doces, mas tinha unhas escuras e dedos ásperos. As mães não reclamavam do cheiro de cigarro, naquele tempo elas fumavam tanto ou mais. Quando a loja abria, não havia muitas clientes e ele ficava só com o fotógrafo, um sujeitinho perfumado que só pararia de falar depois de tomar um tiro na boca. Para não precisar encará-lo, nosso pai fixava o olhar no burro empalhado que era montado pelas crianças. Ficamos sabendo anos mais tarde que usavam olhos de boneca para preencher os globos oculares dos animais mortos.

Nosso pai fazia questão de lembrar como éramos seu inferno. Depois que fui à Coréia, o entendi melhor. Tanto que repeti muitos de seus erros. Nós também o odiávamos. Não estranhamos (ou não nos preocupamos) quando não voltou para casa. Em janeiro, encontraram seu corpo em meio à neve. A polícia acredita que ele bebeu demais, caiu e morreu na beira da estrada, enquanto tentava voltar para casa. No bolso, encontraram um recorte de revista com a foto de Carmen Miranda.










{ Inspirado pelas f otos macabras de Papai Noel: Creepy Santa Claus (post do Mental Floss) & Sketchy Santas ...BOAS FESTAS}

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Coração agalopado



Final de ano e a cidade ganha cor de vermelho, verde, prata, ouro e urgência. Sacolas guardando carinhos, pacotes prometendo abraços, fitas desenhando laços e amores, gente se prometendo mudanças. Arquitetagem de sonhos. Ninguém parece ligar para as filas, as listas, o congestionamento, os pedintes, o cansaço da balconista, a fúria do manobrista. Um novo ano virá e, com ele, os planos a realizar: pintar a casa, trocar o carro, mudar de bairro, voltar a estudar, emagrecer, perdoar, viajar, parar de fumar, mandar o chefe praquele lugar. E em doses cavalares beijar, amar, trepar com urro, a pele amaciar e o peito destravar. Vésperas do Natal,
noite alta, corpo esparramado no sofá, o pé com bolhas após um dia de compras, toca o celular.

Do outro lado, uma voz velha conhecida mas há muito distante. E aí, como vai? Viva o Orkut, finalmente nos achamos de novo. E as palavras jorram, se atropelam e se enovelam. Tanto pra falar, tantos acontecimentos desde então. Saudade braba, ninguém disfarça. Coração agalopado, o pensamento voa veloz rumo a um tempo sem tempo, um parêntesis blindando uma história guardada no arquivo das lembranças eternas. Impossível não delirar e desejar lá no fundo: será que agora vai ser diferente?