sexta-feira, 22 de março de 2019

Escrever




Texto fofo do discurso de venda hipster atropela o senso de ridículo


Sergio Rodrigues VIA




O texto fofo pode estar impresso na caixa de leite, tentando nos convencer de que o líquido ali contido jorrou das tetas de duas vacas simpaticíssimas, Mimosa e Malhada, que o seu Zé da Nena ordenha com amor toda manhã em seu sítio de Bichinho.

Crédulo e confiante na credulidade do leitor, o texto fofo ignora a incongruência entre a cena pastoril e seu suporte industrial, adornado com selo do Ministério da Agricultura e letras miúdas falando em estabilizantes hostis à pureza láctea de Mimosa e Malhada, como o trifosfato de sódio.

Também se encontra o texto fofo em embalagens de suco industrializado, a nos garantir que sorveremos o sumo de frutas colhidas por seu Pádua e dona Carlota em seu pomar de Itapecerica da Serra, depois da curva do rio, ali onde cantam mais alto os sabiás.

Esses exemplos podem sugerir que o texto fofo só brota no mercado de alimentos, mas isso não é verdade. O que comemos e bebemos tem sido embalado em imensa fofura textual, mas nada impede um xampu, por exemplo, de se expressar assim (e agora não faço uma caricatura, mas copio palavra por palavra): "Relaxa, darling! Com nosso tratamento que não cresce pelo, mas cabelo (hehe), sua linda cabeleira será o antes e depois."

Sim, alguns textos fofos são tão mal escritos que jogam no ralo a planejada fofice, mas isso não é uma regra. Sua única obrigação é ser, com perdão da tautologia, fofo. Tentar convencer o consumidor de que aquele produto de massa vendido para multidões sem rosto foi feito com carinho só para ele e por gente como ele, que tem seu jeito e fala sua língua.

É claro que no fundo nunca foi outro o desafio do papo de vendedor em todos os tempos e do discurso publicitário de um século para cá. O potencial comprador deve ser abordado como gente –de preferência "gente como a gente"– e não como alvo a ser abatido. É preciso criar um clima, um vínculo emocional. Ou, como está na moda dizer hoje, uma narrativa.

Isso foi ficando mais difícil à medida que se agigantavam os mercados. No último quarto do século 20 chegamos àquela situação absurda em que, como apontou o escritor americano David Foster Wallace em seu famoso ensaio sobre a ironia, "produtos alegadamente capazes de distinguir os indivíduos da multidão são vendidos para imensas multidões de indivíduos."

O texto fofo é uma resposta desesperada a essa contradição. O que o torna diferente dos velhos pregões de venda são os altíssimos teores de cara de pau exigidos pelas juras de autenticidade, maneirice e paz entre os seres humanos que compõem seu trololó hipster. Quem acreditaria nesse caô?

Uma criança, claro. Uma criança que ainda acredita no Coelhinho da Páscoa acreditaria. Eis por que o texto fofo é sobretudo, desafiando a verossimilhança e o senso de ridículo, profundamente infantil e infantilizante. "Relaxa, darling!"

Quem ainda não se convenceu de que há na floresta da comunicação um novo animal chamado texto fofo deve consultar o site do banco digital para jovens que o Bradesco lançou há três meses, chamado Next. Lá se leem coisas assim: "Um jeito lindão e fácil de ver como tá seu dinheiro. Sem surpresinha." "Junta a grana da galera sem perrengue." "Você merece todo o nosso <3 ". Não é fofo, gente?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Escrever






10 Dicas de roteiro de Billy Wilder

1 O público é volúvel.
2 Agarre-os pelo pescoço e nunca deixe-os ir.
3 Desenvolva uma linha clara de ação para o seu personagem principal.
4 Saiba aonde você está indo.
5 Quanto mais sutil e elegante você for em esconder seus pontos de virada, melhor você é como escritor.
6 Se você tiver um problema com o terceiro ato, o verdadeiro problema está no primeiro ato.
7 Uma dica de Lubitsch: Deixe o público somar dois mais dois. Eles vão te amar para sempre.
8 Ao fazer voice-overs, tome cuidado para não descrever o que o público já vê. Acrescente ao que eles estão vendo.
9  O evento que ocorre na cortina do segundo ato desencadeia o final do filme.
10 O terceiro ato deve progredir, progredir, progredir em ritmo e ação até o último evento, e então – é isso. Não divague.

Via

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Hoje é o Dia do Adulto



“Jedi” virou “Kane”: a infantilização da cultura chega ao auge.



André Barcinski


Amo a cultura pop e passo a maior parte de minha vida profissional escrevendo sobre ela. Diferentemente de muitos, nunca vi gravadoras, estúdios e editoras como vilões, mas como pilares de uma indústria cultural que deu ao mundo grandes discos, filmes e livros. Não acho que arte e comercialismo sejam excludentes (basta lembrar que “O Poderoso Chefão”, um dos maiores filmes já feitos, foi uma superprodução de grande apelo comercial).

Entender a necessidade de lucro da indústria, no entanto, não significa elevar tudo que ela produz a status de grande arte.

Quando leio críticos discorrendo sobre os “tons anticapitalistas” de “Star Wars: Os Últimos Jedi” ou defendendo indicações de “Mulher Maravilha” ao Oscar, é sinal de que muitos estão confundindo sucesso comercial com qualidade artística.

Não vou entrar no mérito dessas opiniões. Se alguém quer acreditar que a Disney, dona da Lucasfilm, fez um libelo contra o capitalismo, ótimo. Só peço duas coisas: a primeira é me avisar quando a Disney doar para cineastas independentes de Cuba o 1,2 bilhão de dólares de bilheteria de “Os Últimos Jedi”. A segunda é admitir que, se “Jedi” é contra o capitalismo, então “A Escolinha do Professor Raimundo” é um manifesto pela diversidade na educação e “Curtindo a Vida Adoidado” é apologia anarquista.


Essa tentativa de legitimar artisticamente produtos ultracomerciais é o último passo num processo de infantilização que já domina quase totalmente a indústria cultural.

Cada vez mais, são produzidos filmes, séries, discos e livros que apelam indiscriminadamente a um público que varia de crianças de 12 anos a adultos de 40.

E está dando certo: mais da metade dos livros adolescentes (“Harry Potter”, “Jogos Vorazes”) são lidos por adultos; séries como “Stranger Things” apelam tanto a jovens quanto a quarentões nostálgicos pelos anos 80, e filmes como “Os Últimos Jedi” atraem aos cinemas crianças e adultos. E não podemos esquecer dos livros de colorir para adultos – que, felizmente, parecem estar em declínio.Não estou criticando adultos que consomem produtos adolescentes. Acho sensacional levar meus filhos pequenos ao cinema e vê-los lendo “Harry Potter”. O problema é quando “Harry Potter” vira referência literária de toda a família e “Guerra nas Estrelas” ganha ares de sofisticação intelectual.

O processo de infantilização da cultura parece ser irreversível. Muitas pessoas que hoje estão no comando de estúdios, gravadoras e editoras têm entre 40 e 50 anos e cresceram num mundo em que a referência de grande cinema era “Guerra nas Estrelas”. E “Guerra nas Estrelas”, sinto informar, não é “Cidadão Kane” ou “Rashomon”.

Caso seu negócio seja música pop, faço outra comparação: os discos do Kiss são divertidíssimos e fizeram parte da vida de muita gente (inclusive da minha), mas as letras de Paul Stanley não podem – e nem devem – ser comparadas às de Bob Dylan, Joni Mitchell ou Leonard Cohen. São universos distintos, apesar de, teoricamente, habitarem a mesma seara do pop comercial.

A qualidade de filmes, discos e livros cai ano após ano, e as razões são muitas: a padronização de temas e estruturas narrativas; o aniquilamento da crítica e sua substituição por Youtubers jabazeiros; a formatação de conteúdo por meio de algoritmos e pesquisas de mercado; o declínio do mercado independente de música e livros; a cultura do “blockbuster”; a monopolização do mercado de shows; a falácia da teoria da “cauda longa” (que levou muita gente a acreditar na democracia digital como pilar do ecletismo cultural) e, por fim – e mais triste – a constatação de que o público, mais que nunca, só quer mais do mesmo.